Sábado, 19 de Abril de 2008

Viagem à roda do meu nome

Não gosto do meu nome. Pronto, está dito. É verdade, há coisas mais importantes para as quais reflectir, como por exemplo tanta gente se preocupar mais com o desemprego dos licenciados e menos com o facto de os cursos superiores não fazerem absolutamente nada para preparar os alunos para O Trabalho. E também há coisas mais mesquinhas com as quais me aborrecer inutilmente, como quando a entrar no metro de Lisboa há gente que não sabe ocupar o espaço da carruagem e mete-se ali mesmo à entrada, sem se desviar um milímetro. Haverá coisa que dê mais razão ao nascimento de um serial killer que esta gente que não se sabe desviar para o lado e fica ali a atrapalhar a vida de toda a gente que quer entrar e sair? Não, não há.

 

Mas enfim, o nome. Ora, um nome testa-se pela versatilidade. Um Luís pode ser um britânico Louis, um francês Louie, um italiano Luigi, um alemão Ludwig. Catarina, por sua vez, passa pelo inglês Catherine, pelo francês Catherine (escrevem-se da mesma maneira, mas a versão francesa é muito mais sexy), o russo Екатэрина (para aqueles que não sabem russo, como por exemplo toda a gente, incluíndo eu, lê-se em algo como Iekaterina). Com isto é fácil perceber que um nome também se experimenta nas raízes históricas (históricas, não "estóricas" - maldito acordo ortográfico!). Dos exemplos acima, temos dezenas de reis Louie em França, um Ludwig van Beethoven na Alemanha, um Luigi que é irmão do Super Mario, aquela música "Louie, Louie", dos Kingsmen. Já Catarina tem a homóloga russa Екатерина II Великая (aquela, A Grande), a Catherine Zeta-Jones, até uma graçola fácil entre a condição de ser mulher e o Katrina podia ser feita.

 

Mas mais ainda, porque o verdadeiro poder de um nome vem com as possibilidades que abre ao nível das rimas. Nada mais expressivo para uma declaração apaixonada, um insulto inflamado, ou apenas uma gracinha fácil, que o nome da pessoa visada com uma rima. Para os apaixonados temos "João, só de te ver palpita meu coração!" ou "Catarina, só de te ver tremo como gelatina!", o que até pode soar muito foleiro, mas a paixão e a razão sempre mantiveram pouca companhia. Mas então, para quem queira o insulto fácil, "É tão banana, a Mariana!" ou "Que nojenta ratazana, aquela Joana!". Ou até, para os momentos mais humorados, "José, José, José, vai já lavar esse pé!" ou "A Camila está tão tranquila que até rejubila!". Logo por aqui se percebem as possibilidades. Agora, com o meu nome, enfim, "Quando à loja fui, bati numa pedra e ui!"? Nem faço comentários.

 

Esta algaraviada sem sentido nenhum (sou especialista em verborreias escritas, é uma qualidade que me bem me podia ter levado para a Assembleia da República, mas não, e culpo a minha psicóloga do nono ano por isso, que  não me soube orientar nestes complexos meandros da vida adulta) para dizer que a partir de agora os meus artigos vão ser assinados com o nome próprio. Nunca tinha pensado, mas não há sentido nenhum em que fosse eu a assinar como Bloquito, quando este é criação de dois. E também não havia nenhuma necessidade de toda esta explicação, ´mas para quem queira reclamar, é favor ler este parágrafo desde o início com atenção.

 

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publicado por Rui às 12:52
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3 comentários:
De ZÉ DA BURRA O ALENTEJANO a 21 de Abril de 2008 às 11:59
A Língua portuguesa está a passar por um período de implantação, quer nos países Africanos de Língua Portuguesa, quer em Timor Leste. Na Guiné-Bissau esteve até para ser adoptado o Francês como língua oficial e em Timor-Leste o Inglês. Daí será fácil concluir que a língua portuguesa nas nossas ex-colónias não ficou muito bem cimentada. Esses países já não são colónias portuguesas, são livres e tanto poderão seguir o português falado em Portugal, por 10 milhões de habitantes, como o português falado no Brasil, por 220 milhões.

A teoria de Darwin é mesmo verdadeira e Portugal, se teimar em não se aproximar da versão de português do Brasil sujeita-se a ficar só e, mesmo assim, não vai conseguir manter a pureza da língua porque ela evolui todos os dias, independentemente da questão que agora se nos põe: todos os dias há termos que caem em desuso e outros novos que são adoptados pela nossa língua, em especial termos ingleses que são adoptados sem quaisquer modificações.

Se não houver aproximações sucessivas ambas as versões do português continuarão a divergir e daqui a algumas gerações serão línguas completamente distintas. Será então a altura de Portugal confirmar que saiu a perder porque ficou agarrado a um tabu que não conseguiu ultrapassar.

O Brasil tem um impacto muito maior no mundo do que Portugal, dada a sua dimensão, população e poderio económico que em breve irá ter. O nosso português tem hoje algum peso muito em função dos novos países africanos PALOPs ) e de Timor Leste, mas ninguém garante que esses países não venham um dia a aproximar o seu português da versão brasileira e há até já alguns sinais nesse sentido. A população do Brasil permite altas tiragens das publicações que ficarão mais baratas e, se houver maior harmonização, as editoras portuguesas (e amanhã dos PALOPs ) poderão vender mais no Brasil.

Se Portugal permanecer imutável um dia poderá ficar só: a língua portuguesa de Portugal será então considerada uma respeitável língua antiga (o Grego é ainda mais), da qual derivou uma outra falada e escrita por centenas de milhões de habitantes neste planeta. O nosso orgulho ficar-se-á por aí e pronto!

Ambas as versões de português têm uma raiz comum e divergem há apenas cerca de 250 anos. Outros tantos anos a divergir e já não nos entenderemos, terão que ser consideradas duas línguas.

O acordo ortográfico é uma decisão apenas política que os técnicos terão depois que assimilar e seguir. Por exemplo: não se poderá alterar por decreto que uma molécula de água passa a ter dois átomos de oxigénio e outros dois de hidrogénio; ou que 5 vezes 5 passa a ser 28, em vez de 25. Mas por decreto pode alterar-se a grafia de "acção" para "ação" e quem não o aceitar passa a cometer um erro.

Portugal nada ganhará de imediato, mas tem muito a perder no futuro se rejeitar agora o acordo que o Brasil está disposto a aceitar.



De Luís a 22 de Abril de 2008 às 11:36
Bem, tudo muda, todos crescemos. Devo-te até dizer que já há algum tempo que deixaste de integrar a minha lista de telemóvel na secção da letra "N" para passares para a adulta letra "R"...


De Zé da Burra... a 9 de Setembro de 2008 às 17:20
Há cerca de 100 anos fizémos alterações nesse sentido que hoje ninguém contesta: basta pegarmos num livro desse tempo e facilmente constataremos muitas diferenças gráficas, por exemplo: commissario, auctoridade, offerecer, allemão, commercio, thermometro, affirmar, jury, official, (e o seu plural) officiaes, monarchia, d'elle, d'ella, d'este d'aquelle, n'esse, n'essa, pharmacia, elephante, sêco, Victor, Luíz, Benguella, Mossamedes, Pôrto, Cintra, Cezimbra, Barca d'Alva...

Deveremos por também em causa aquelas alterações?

Zé da Burra...


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