Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Desabafo, parte XIII...

Encho o peito de ar e entro em mim de novo. Encontro aquilo que tenho encontrado sempre, todos os dias e noites, de cada vez que tento encontrar inspiração: nada...

Aterro com um estrondo num deserto quente, formando uma coluna de areia enorme, com o impacto. Só cuspo areia e letras soltas que me ficam presas na boca. Olho em volta, à procura de algo, de uma ninharia qualquer que me puxe em qualquer direcção, mas nada surge. Nem uma folha à volta da qual pudesse criar um oásis, nem um pelo à volta do qual pudesse fazer surgir um camelo idiota. Apenas um enorme nada que me aperta por todo o lado com a sua simplicidade ensurtecedora.

A Banda-Desenhada parece-me fútil. Super-poderes, espadas, dragões, feitiços... Temo bem que, malogradamente aquilo que o meu Consciente acreditava, me estou finalmente a aperceber que (infelizmente) não existe gente que voa e que tem força para levantar autocarros com dois dedos. Além disso, egocênctrico como sou, fazer Banda-Desenhada para mim próprio já não chega. Não existe estímulo maior à criação que estar inserido numa turma onde, dia após dia, me era perguntado, no meio das aulas em surdina: "Hei, Luís! A tua BD? Já fizeste mais?" Frase-chave. Não tenho público, não funciono.

A Escrita não se-me impõe. Todo o meu desfiar de palavreado advém advinha sempre de uma simples e linear ideia à volta da qual eu colocava ramos, folhas, frutos, coelhos, navalhas e pingos de sangue num dos muitos momentos livres em que deixava a minha mente derivar por entre ondas férteis de idiotice. Neste momento, qualquer segundo em que páro para pensar dou por mim a divagar nas várias formas que os meus "alunos" poderão agredir os colegas fisicamente e nas magras formas que tenho de os controlar. E nada mais além disso. Sinto-me, genuinamente, como um traumatizado do Vietnam ou do nosso Ultramar que acorda de noite imerso em suores a gritar o nome de um qualquer aluno. Vou tatuar num braço umas letras ensanguentadas "Escola do Fischer 2008/2009"... Talvez, depois de uns bons dias entrado de férias consiga produzir.

Mas por enquanto agarro punhadas de areia e deixo-a escorrer pelos dedos. Quente, suave... branca, igual, sem sabor, básica... Mais vale sair daqui de novo e regressar àquele outro sítio onde imagino como e quando aquela serra da sala vai encontrar o seu caminho até à vista de um "aluno" qualquer...

 

 

publicado por Luís às 12:10
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1 comentário:
De impressoesdigitais a 3 de Maio de 2008 às 23:52
Como eu te entendo!


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