Domingo, 1 de Junho de 2008

O acordo ortográfico

É tipicamente português não se ter um debate verdadeiramente estimulante sem que o mesmo passe efectivamente a uma discussão que parolamente se vai arrastando sem que ninguém consiga ter uma intervenção que realmente nada mais quer que não rebaixar o opositor. Realmente, depois do aborto e do tabaco, encontra-se relutantemente por aí a última tendência, o Acordo Ortográfico, e dizer que é a "última tendência" apenas se pode considerar exageradamente falando, pois já me lembro disto desde que era um puto. É também verdadeiramente português que uma discussão pública se arraste por tantos anos.

 

Há quem discorde exageradamente do Acordo por por este possivelmente destruir a pureza da língua portuguesa, mas este argumento é, como se designa em círculos academicamente elevados, uma parvoíce. Não se designa de pura uma língua que foi buscar tantas influências a continentes absolutamente tão diversos quanto América (Brasil), Ásia (Macau) e África (todos os PALOP), e mesmo que se possa verdadeiramente considerar a língua como uma das principais riquezas de cada povo, é indubidavelmente factual que qualquer texto "oficial" dos inícios do século XX faria corar vergonhosamente um professor do ensino básico, pelas diferentes construções gramaticais, palavras que vagamente familiares mas tão estranhamente diferentes que qualquer aluno dos nossos dias ao escrevê-las se arriscaria a um estalo. A um estalo ao professor, claro, porque se nos meus tempos um erro como "tantto", com dois t, era caso para um estalo vindo da docente, nos nossos dias daria no máximo uma repreensão à qual o aluno repreendido iria repreendemente repreender a repreendedora com um repreendedor estalo. O facto é que o contacto entre civilizações promove a troca de ideias e inevitavelmente leva à influência mútua e enriquecimento cultural, algo que os Portugueses devem muito desde que se lançaram a dobrar Cabos Bojadores e afins.

 

Se não concordam que a pureza da língua portuguesa bem podia ser desfeita, recordo só que é culpa dos portugueses que efectivamente existem tantos advérbios. E, claramente, os advérbios são das invenções mais inúteis em qualquer língua, em qualquer país, em qualquer realidade, alternativa ou não. Basta lerem todo este texto, apagar os advérbios (foram, todos eles, propositadamente deixados), e reparar como claramente não fazem falta nenhuma. Há uma história, que ainda estou para confirmar se é verdade, segundo a qual um amigo teria dito a outro que um advérbio era qualquer palavra terminada em -ente. Uma sugestão com a qual o rapazinho, ao ser perguntado mais tarde pela professora sobre um exemplo de advérbio, teria respondido, "pepsodent!". 

 

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publicado por Rui às 22:14
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