Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

de estar doente

Quando começou a Criação, Deus bem me podia ter pedido a opinião para alguns pormenores, como para quando alguém estivesse doente. Sim, todos nós conhecemos aqueles dias em que acordamos alagados em suor, a cabeça pesada, cada movimento a doer, o corpo a largar todo o género de nhanhas pelo nariz. Apesar das minhas divergências com Ele, a ideia das doenças é uma com a qual eu concordo em absoluto. A razão de alguém ficar doente não é, ao contrário das teorias bacocas que as gentes espirituais lançam, ficar mais forte e conhecer o verdadeiro valor da vida, mas sim ser mais mimado que um puto acabado de nascer. Bébés são criaturas pequeninas irresistivelmente adoráveis nas quais é impossível permanecer ao lado sem lhes fazer coceguinhas na barriguinha ou ficar sem o coração absolutamente derretido quando nos agarram o dedo com a mãozinha e não o largam mais, e que me fazem também escrever um artigo que numa única frase contém mais diminutivos que em quatro anos do Bloquito, mas quando essas criaturas começam a medir um metro e oitenta e sete e a terem a barba por fazer, de certa maneira essa mística perde-se e os mimos são relegados.

 

Por um qualquer motivo insondável que Lhe deve ser questionado, há perturbadoras semelhanças entre um bébé e um doente na maneira como são cobertos de mimos por quem os rodeia, desde que essa doença não seja demasiado séria, algo como, por exemplo, uma gripe apanhada por se ter estado a levar com o frio vento aveirense durante um concerto dos Blasted Mechanism. E por um qualquer motivo insondável que definitivamente Lhe deve ser questionado, não se pode perceber como alguém fica doente se não tem ninguém ao lado que lhe dê os mimos porque, para parafrasear uma das mais belas frases que um professor alguma vez me deixou, há vinte anos que não fico doente, desde que me divorciei que não tenho quem me dê mimos, para que é que eu ia ficar doente? Ficar doente e ter de garantir o almoço, levantar para aquecer o chá e preparar as torradas com mel e não ter quem lhe ajeite os lençóis e pergunte de cinco em cinco minutos se precisa de alguma coisa, é o tipo de ironia sarcástica típica do Senhor, a mesma que faz com que bandas como Whitesnake ou Meat Loaf ainda continuem vivos e a vender.

 

Podia continuar a dissertar sobre as minhas divergências com o Pai-Nosso, e vou fazê-lo, porque outra invenção que tem o mesmo grau de importância na Existência que as torradas caírem sempre com a manteiga virada para baixo, é aquela gente que, ao saber que pedi um dia no trabalho porque até ir à casa-de-banho dá arrepios, e não aqueles arrepios que a Jennifer Connelly me daria se estivesse à minha frente num concurso de olhares fixos, fica com aquele arzinho de ai, e ficaste em casa só por causa disso, eu já fui trabalhar com não-sei-quantos-de-febre, todo fodido! Podem dizer-me que é uma atitude muito corajosa, e eu direi que sim, é verdade, tão corajosa quando escovar os dentes com arame farpado.

 

 

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publicado por Rui às 22:55
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