Domingo, 21 de Setembro de 2008

mais horas

"Sim, bom dia, estou a falar com o sr. Rui? Sr. Rui, sim, daqui fala da Bloquito Produções, sr. Rui, sim, recebemos o seu currículo e, sr. Rui, sim, queríamos saber se está disponível para falarmos! Sim, sr. Rui, pode ser amanhã, às dez e meia?"

 

Yaba-daba-doo, pensei, uma entrevista de emprego, mais uma oportunidade de me sentar em frente a quem não conheço de lado nenhum para soltar frases de efeito previamente ensaiadas, como admitir que, após vasculhar o mais podre da minha alma, o pior defeito que eventualmente posso ter é ser muito teimoso. Vou estar a mentir, mas já lá vão os tempos em que acreditava que apenas por ser muito bonzinho seria recompensado com um óptimo trabalho e sexo espectacular. Se a lição que a infância me ensinou foi a de ter princípios, a lição que a Vida ensinou à minha infância foi que quando ela, a Vida, entra porta adentro, os princípios saltam janela fora.

 

Por exemplo, aconteceu há pouco tempo terem feito um elogio do catano ao Bloquito, e não estou a exagerar ao dizer que foram muitas linhas no Messenger a falar das gargalhadas a cada novo artigo, da fluidez do texto, dos pormenores tão bem enquadrados no âmbito geral, das referências de cultura pop. As maltas espirituais até podem achar que o ego é a causa de toda a infelicidade da Humanidade, mas maltas espirituais também acham que a Vida é o melhor que existe, e depois a Vida tem coisas como a nana-san-ichi butai, que, e apesar do nome altamente foleiro levar a pensar de outra maneira, não é um novo pokémon. Portanto, sim, o meu ego elevou-se um poucochinho, sendo que abro aqui um parêntesis para reflectir como poucochinho tem de ser uma das palavras mais imbecis da língua portuguesa, reflexão após a qual encerro os parêntesis. Mas, a esta altura do campeonato, e já lá vão mais de quatro anos de Bloquito, não seriam justas as aspirações que fosse, sei lá, a Adriana Lima a fazer-me tal declaração, num momento de inacreditável poesia e sublevação, com pétalas de rosa e violinos de Beethoven, que me faria cair de joelhos em amor amor eterno? Claro que se a Adriana Lima me enfiasse os dedos nos olhos e uma joelhada nas partes baixas, que é o cenário mais provável, mesmo assim eu iria cair de joelhos em amor eterno. Mas não só não foi a Adriana a dizer-me, como ainda para mais esse tipo de elogios são tão raros que até me sinto na obrigação de os partilhar quando acontecem. O que costumo ouvir passa mais pelos típicos, vai mas é trabalhar!, ou, se te deixasses de gatafunhos e estudasses!... Mais, ainda no outro dia me admitiram que não iam ver o Wall-E pelo que eu tinha escrito, e se influenciar jovens e virginais mentes para os meus retorcidos propósitos parece ser um óptimo primeiro passo para o meu grande objectivo de dominar o mundo, a verdade é que depois de sair do cinema passei tantas horas a encontrar as palavras certas para explicar como deviam largar tudo o que estivessem a fazer nesse momento, com possível excepção se esse tudo incluísse qualquer actividade com a Adriana Lima, e correr para o cinema para conhecer o robot da Pixar! Dizerem-me que não, não vão porque consegui consegui a proeza de as convencer a fazer exactamente o contrário, é cruel. É sádico. É uma sessão completa de etiqueta e boas maneiras com a Paula Bobone.

 

Não estou aqui a lamentar-me da infelicidade do artista na altura da Criação, porque percebi há muito, com a rara argúcia e fino recorte técnico que me são característicos, que o lobby da muito superior capacidade, inteligência, dedicação e talento, é quanto basta para convencer as pessoas lerem e comentarem ó, sim, é maravilhoso, que profundidade!, como acontece com o António Lobo Antunes na Visão. Se lerem o que eu escrevo, resmungam que palerma!, ou quel idiotte!, se forem franceses, e mudam de página. Também percebi há muito que isto da escrita, como em tudo o resto neste país, sem cunhas não vai lá. Mas repare-se como em apenas meia-dúzia de linhas por aqui diz desfilar sentidos desabafos das complexidades contemporâneas, reminiscências da vida infantil, intricadas reflexões políticas e sociais, laivos de cultura pop com ligações aos mais conceituados representantes, e referências a uma das épocas mais negras da Humanidade que não incluiu as palavras "nazi" ou "fátima felgueiras", e com tamanha perfeição e harmonia! Se isto não é um óptimo partido, Adriana, tens de começar a baixar os teus padrões, rapariga! Deixa lá essa malta do estrelato e da realeza que isso não te faz bem nenhum.

 

 

Etiqueta:
publicado por Rui às 16:31
ligação | comentar
3 comentários:
De Nuno a 26 de Setembro de 2008 às 13:47
Tu só me dás razão...

E a referência ao Nana-San-Ichi Butai! Ui... É que é um luxo, nunca tinha ouvido em tal coisa. Eu e a vasta maioria das pessoas, basta ver que em milhentos jogos sobre a WWII apenas 2 ou três te levam a lutar com os honrados e inteligentes nipónicos! Porque será?

Até o Spielberg n' "O Império do Sol" ( com um tal de Bale) pinta os japonas com umas cores muito suaves...

É oficial, eu considero este blog como serviço público!


De Rui a 26 de Setembro de 2008 às 20:29
Pintou os nipónicos com cores muito suaves apenas porque era o jovem Bale que estava lá com eles, porque o Bale adulto, sozinho, desancava o mais feio dos exércitos do Hirohito, aproveitava para ir à Alemanha resolver aquelas brigas de vizinhos que os europeus andavam a ter com o Hitler, recuperava a economia da Europa e ainda dava um salto até ao Médio Oriente só para ter a certeza que daí a alguns anos eles não se metessem com ideias de talibans e Al-Qaedas. O desembarque na Normandia não teria sido mais que as tropas aliadas a assarem marshmallows na praia e a cantarem a My Sweet Valentine se o Bale adulto estivesse lá com eles. :p


De Nuno a 28 de Setembro de 2008 às 02:00
E tudo graças ao cinto repleto de úteis geringonças e maquinetas! ;)


Comentar post

Março 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

29
30
31


Pesquisar

 

Arquivos

Março 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Maio 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Artigos recentes

assim a modos que daquela...

coisas em que não se pens...

também é verdade

os anéis no céu

P.A.C. Man

no trabalho

emoções

à procura...

#1

intenções

RSS

:.