Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

não, ainda não me fartei

Lisboa é uma cidade que não se consegue decidir. É como aquelas pessoas que estão no supermercado a tentar decidir  se levam um pacote de farinha fina, de farinha extra-fina, ou de farinha agora ainda mais fina, e a acreditar que deve haver uma diferença espectacular entre todas elas. Há quem diga ó sim, que cidade fascinante, e a história e a tradição e a cultura!, mas da última vez que fui ao Pingo Doce não fiquei assim tão maravilhado com o raio da mulher que se tinha colocado num ponto estrategicamente colocado que me impedia de chegar à Maizena sem me fazer soltar um com licença. Se não toleramos isso com este género de gente, porque é que com Lisboa deve ser diferente?

 

Ir para o trabalho todas as manhãs é como estar na história do Arlequim, o menino tão pobrezinho que fez um fato de Carnaval a partir de retalhos, porque é isso que esta cidade me faz lembrar, um manto de retalhos, perdido entre as grandes cidades europeias e a aldeia dos meus avós. Ao sair de casa reparo que por aqui ninguém se senta descansado a tomar o pequeno-almoço na pastelaria, mas sim de pé, ao balcão, a enfiar o queque para baixo com o último trago do café, a falar ao telemóvel e a ler o jornal gratuito, a consultar a agenda e a pagar em nota de cinquenta euros, e tudo ao mesmo tempo, que eu já vi. Enquanto os senhores de fato e gravata tudo fazem para serem dinâmicos e pró-activos, do outro lado da lua fica o Pai Natal, o mendigo de barbas brancas que passa os dias a berrar, para ninguém em geral ou para todos em particular, parvos, paneleiros, cabrões de merda. Logo após fica uma mercearia de bairro instalada à esquina, onde a dona conhece os clientes pelo sr. Jaquim e pela sr.ª Manela, e onde se faz o fiado que é anotado num caderninho e pago ao fim do mês. A porta logo a seguir a esse tão português momento é uma sex-shop, completa com manequins em tangas de leopardo e filmes para adultos vinte e quatro horas por dia. O som muito recôndito da minha infância, da gaita-de-beiços de um amolador de facas a anunciar os seus serviços enche o ar, enquanto é cortado pela buzina de Mercedes SLR que não tem espaço para passar. Para quem, como eu, não percebe patavina de carros e acha que jantes são aquelas alavancas que se usam para reclinar os bancos, esclareço que um SLR é dos carros mais caros e elitistas que estão nas estradas portuguesas e que existem talvez uma meia-dúzia deles em todo o país. E ainda no outro dia apanhei algo que já nem recordava que existisse, um vendedor da lotaria, completo com um molho de talões na mão e o brado de andar à roda dia vinte e três. Ou ando desactualizado, ou abriu-se uma fenda no continuum espaço-temporal que anda a soltar cá para fora este género de coisas.

 

Mas talvez Lisboa não seja como uma daquelas pessoas, mas como o Coiote dos desenhos animados do Papa-Léguas. Sim, aquele pobre esfomeado que estava sempre a torrar fortunas nas engenhocas da ACME para conseguir apanhar o Papa-Léguas em vez de aproveitar para mandar vir refeições do El Bulli ou até do Burger King. Mas estão a ver aqueles momentos em que o Coiote ficava preso entre duas montanhas, os pés agarrados a uma e as mãos fincados a outra, e a gravidade começava a fazer das suas?  É assim Lisboa, uma esfomeada agarrada a duas montanhas, nos pés a tradição e a história, nas mãos a modernidade e o avant-garde. E assim como com o pobre canino, não podemos deixar de simpatizar com as tentativas desta cidade em tentar, tentar sempre, ainda que pudesse evitar gastar fortunas em parvoíces e ser um pouco mais inteligente. Mas pelo menos espera-se que não se deixe cair lá de cima, com a aparatosa queda no chão a levantar uma nuvem de pó.

 

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publicado por Rui às 21:59
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