Domingo, 28 de Setembro de 2008

da paixão

Quando leio a Caras sinto que o mundo está cheio de pessoas tão fabulosas e com tantas virtudes que só me fazem sentir ainda mais a minha longa lista de incapacidades. Logo para começar, sou um nervoso crónico incapaz de manter a calma mesmo que estivesse num retiro espiritual a partilhar o quarto com o Buda e o Dalai Lama, uma triste característica que me faz, em momentos de grande tensão, disparar a primeira coisa que me vêm à cabeça, algo que as minhas ex-namoradas estarão agora a ler e a concordar com um suspiro, ou com uma gargalhada sarcástica, depende das saudades que tiverem de mim.
 

Ainda no outro dia lia alguém admitir que tinha uma doença crónica e como era uma oportunidade de se conhecer melhor e de ajudar a viver melhor a vida. A última vez que verifiquei, i.e., há dois segundos atrás, uma doença crónica tinha coisas chatas, dores e sequelas desagradáveis de me fazerem correr para a casa de banho ao primeiro sinal de alarme, porque o malvado do Crohn tem a sua própria agenda de me lixar a cabeça a cada oportunidade e altura menos apropriada. Por exemplo, durante esta semana teve início uma guerra nuclear nos meus intestinos e, num daqueles twists irónicos que me fazem passar por isto mas não me fazem ganhar o Euro Milhões, não tinha papel higiénico e muito menos os necessários dez minutos para ir num instantinho ao Pingo Doce da esquina equipar-me com o necessário material, pelo que me socorri de um livro da Margarida Rebelo Pinto para a limpeza dos despojos daquela guerra.
 

E dizem-me, Rui Pedro, que nojo, como é que alguém pode usar um livro para algo tão baixo, tão reles, tão sujo! E eu concordo, mas não fui eu que imprimi o coitado do livro com histórias da Margarida Rebelo Pinto, por isso culpem o editor. Os mais atentos irão dizer, não penses que te escapas, grande merdolas, tinhas um livro da Margarida Rebelo Pinto em casa, essa é que é essa! Fiquei com ele porque a marca de dez euros na capa convenceu-me que era o que me iam pagar para o ler, é um preço muito baixo para uma tortura dessas, mas sempre fui um barato. Se me pedissem para limpar uma estrebaria na qual as vaquinhas tivessem sido alimentadas durante uma semana com uma rigorosa dieta de feijões e chili, iria reclamar, todo ferido na minha sensibilidade máscula, que não senhor, nem pensar, alguma vez!, excepto se o pedido fosse feito por uma menina que me tocasse com a mão no braço e desse um sorriso enquanto inclinasse a cabeça, caso no qual eu iria perguntar se também queria que desse uma passagem de lixívia e frescura ambiental.

 

Bem, mas não só não recebi o dinheiro, como ao sair da livraria aquilo desatou a fazer uma chiadeira e vieram a correr atrás de mim, a gritar que eu era um ladrão e que era eu e gente como eu a causa de o país estar como está. Pirei-me logo dali, porque mesmo com toda a minha nobre e inatacável inocência, aqui em Portugal acontecem coisas feias às pessoas que vão para a esquadra, como serem decapitadas ou levarem com um balázio de algum tarado que anda a jogar demasiado GTA e acha que entrar aos tiros num edifício da polícia é uma linda coisa de se fazer. Pelo menos isto do Crohn aguça o sentido de velocidade e já me tornou um Usai Bolt dos centros urbanos, pelo que não foi difícil despistar aquela cambada de tarados que exigiam que pagasse pelo livro da Margarida Rebelo Pinto. Pagar por um livro da Margarida Rebelo Pinto é conceito tão bizarro quanto alguma vez o Pedro Santana Lopes chegar a pimeiro-ministro de Portugal sem sequer ir a eleições, é coisa que não tem sentido nenhum. 

 

Afinal, lá me explicaram que não, tinha mesmo de pagar pelo raio do livro da Margarida Rebelo Pinto e que aquilo que eu tinha feito era um crime, e se ainda tentei explicar que isso era uma parvoíce sem nexo nenhum, os argumentos da outra pessoas, onde se incluiu tocar-me com a mão no braço e inclinar ligeiramente a cabeça com um sorriso, tiveram a proeza de me convencer que desta vez estava errado. A moral de toda esta história é que a dez euros por um punhado de folhas sem qualquer capacidade de absorção,  esta Margarida Rebelo Pinto tornou-se o papel higiénico mais caro da minha vida.

 

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publicado por Rui às 19:57
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1 comentário:
De Artemisa a 17 de Outubro de 2008 às 15:52
Mas que post tão divertido... :)

Gostei muito do seu blog!

Um abraço!


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