Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

uma dia na vida

Isto o tramado da vida é quando se apanha apanha com uma música e se fica com ela na cabeça durante todo o dia, que ainda hoje bastou um segundo do Elton John para ficar a cantarolar but it's no sacrifice, no sacrifice, o resto da tarde, mas parece que para o Miguel Torga o tramado era ficar uma tarde inteira para conseguir uma única figura de estilo, o que para alguns é evidência de como era um grande escritor e essas coisas, mas para mim só prova que ainda morava com os pais, porque ninguém fica uma tarde inteira à procura de um oxímoro se tiver roupa para lavar e o chão para varrer. Não que eu tenha nada contra morar com os pais, atenção, que ainda dão bastante jeito, a minha mãe deve ser a única pessoa à face da Terra a saber onde estão aquelas coisas das quais não sei há anos, e cuja localização me é dada com uma precisão que dá gosto, de estarem na segunda gaveta a contar de baixo, do lado direito, debaixo das rendinhas. Também por isso a mãe é o único ser que se pode perdoar de usar e abusar dessa figura estilística tão enervante que são os diminutivos, algo que os empregados do restaurante onde almoço podiam aprender, que se me voltam a dar o "ora aqui está os bifinhos com o arrozinho" ou "vamos lá às coxinhas com  purezinho", bem se arriscam a levar com o prato na cara. Mas lá está, é por isso que mãe há só uma, uma frase que é suposto ter um grande significado e profundidade, mas que eu pensava que era o que lhe respondia quando me mandava buscar duas laranjas à despensa para ela fazer um bolo, e quando eu percebia que já só havia uma porque tinha comido todas as outras, lhe respondia, "mãe, há só uma". E é também uma garantia de a despensa estar sempre recheada, que eu a viver sozinho quantas vezes me levanto a meio da noite cheio de fome e percebo que só tenho chocolate em pó para comer e acabo em desespero de causa a enfardar à colherada o Suchard Express, de longe o melhor chocolate em pó de todos, muito superior aquele do Lidl que não se dissolve como deve ser e deixa uma espessa fatia de chocolate por cima e o leite por baixo em branco, mas que depois não me deixa dormir como deve ser com dores de barriga. Por isso, sim, dão jeito, os pais, um gajo é um gajo demasiado ocupado, com isto de ficar a jogar Warcraft III e a meter fotos no Hi5, não que eu tenha Hi5, ainda no outro dia me perguntaram porque é que eu não tinha Hi5, e até me dei ao trabalho de pensar na questão, mas só porque tinha sido uma menina a fazer a pergunta, porque se fosse um gajo bem o mandava dar uma volta, mas como era um membro de sexo feminino lá fiz o esforço de pensar numa resposta que me fizesse parecer assim um gajo todo zen e com uma grande personalidade que realmente teria todos os motivos do mundo para não ter um Hi5, que elas gostam disso. Nem me lembro bem o que respondi, algo brilhante, como sempre, mas isto do zen fez-me lembrar a fase da vida em que era todo esotérico e preocupado com as energias universais e como me deixei disso quando percebi que uma péssima táctica de engate, elas achavam que lá por ser todo espiritualmente elevado não lhes ia tentar saltar para cima, e é claro que ia tentar, ia tentar sempre, que eu bem sei. A conclusão de tudo isto é um momento de tal genialidade que só pode ser comparado ao momento em que os meus pais acham bem tratar-me por Rucoquinhas ou Rucocachinhas ou outros diminutivos altamente embaraçantes que nem tenho a certeza como se escrevem: não tenho Hi5 porque o meu coração, ó!, é como um limão, tolhido do mundo da confusão,do peito arrancado com esta mão, que ainda um dia quer ir ao Japão. Pois é, Miguel Torga, ficar uma tarde inteira a olhar para o papel em branco todos podem, mas fazer como eu, num único momento reunir rimas, comparações, assíndetos, hipérbatos, disfemismos, e até uma invocação, é coisa apenas ao alcance dos predestinados. No sacrifice at all.

 

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publicado por Rui às 21:55
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3 comentários:
De a menina que perguntou se tinhas hi5 a 24 de Outubro de 2008 às 09:58
Respondeste qualquer coisa como: "depois toda a gente fica a saber coisas a meu respeito... coisas que só conto aos amigos... mas agora já dá para activar a política de privacidade que não permite que toda a gente aceda, não é?... pois, qualquer dia volto a activar... mas se limito os acessos aos amigos, então depois perde-se a filosofia basilar do hi5 de estarmos receptivos a construir amizades por aí... ainda não pensei muito sobre isso!" :)


De Rui a 24 de Outubro de 2008 às 20:11
Apesar de tudo, não sei se o discurso terá sido exactamente assim, porque "basilar" é, juntamente com "paradigma", uma daquelas palavras altamente detestáveis que me recuso a utilizar. Mas sim, de resto parece o género de coisa que diria.


De Anónimo a 24 de Outubro de 2008 às 16:34
Cocnlusão: deves ter pais muito bons. E então o teu pai deve ser fabuloso lol lol lol
Abraço


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