Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

não apanhar a linha azul quando há jogo na luz

Morar com uma dúzia de representantes dessa espécie tão humana que é a Humanidade tem disto, ainda esta semana entrei na cozinha e percebi que algo estava diferente, havia páginas abertas em cima da mesa e várias pessoas a falar, mas não era da Maxmen o volume de folhas, nem o volume esférico dos seios da Luciana Abreu a discussão a debate, mas uma bíblia, aliás, duas bíblias, que uma até era desavergonhadamente ilustrada, e ouviam-se coisas como "Jesus died for our sins, because he loves us so very much", assim mesmo, em inglês. Só faltou um "praise the lord!" por ali, mas sempre me pareceu que o problema em toda a questão religiosa, e se o Papa terá moral para criticar os capitalistas castelos de areia da actual sociedade consumista enquanto o Vaticano tem um PIB que daria para alimentar metade da população africana, é que há alguns milhares de anos o Homem decidiu separar-se de Deus, como uma criança prodígio que vai embora da aldeia porque não está para se chatear a casar e a passar a vida no campo quando pode ir curar o cancro, ou desenvolver um revolucionário sistema de teletransporte, e que chateie os mais mariquinhas puristas, mas o Homem não se safa muito mal nisto de substituir o Criador, porque o cego pode argumentar que vive na benção dos céus e que verdadeiro cego é aquele que não quer ver, mas o dia em que a Ciência conseguir restituir-lhe a visão é o dia em que vai mandar o Senhor à fava e optar pelas hipóteses do Homem.

 

Mas isto de inspiração pessoal parece-me importante, porque sentir que nada faz sentido é o primeiro passo para cair da cadeira abaixo com uma gravata de corda presa ao tecto, pelo que aproveitei a indicação de várias pessoas para procurar o tal Randy Pausch, professor universitário diagnosticado com cancro terminal e que aproveitou as últimas aulas para passar aquilo que acreditava ser uma lição de vida. Não sou o melhor amigo de mensagens de inspiração, esta moral que ensina como todos são tão especiais, e como têm todo o direito de realizar os sonhos se apenas acreditarem, tem dado origem a uma cambada de fenomenais idiotas que consideram que a compra de um BMW Z3 é uma obrigação perfeitamente natural dos papás, e também porque, bem lá no fundo, a minha cristã educação não consegue deixar de acreditar numa ideia tão parva, o que me tem dado um Q de dissabores à medida que a Vida se delicia em me mostrar espectacularmente errado. Se o caixote do lixo seria a paragem mais próxima deste tipo de sugestões, uma vez que vieram de pessoas por quem quem tenho a consideração suficiente para de vez em quando até fingir que gosto delas, fui ao You Tube procurar pelos sonhos de criança do professor Pausch.

 

Agora, não que alguma vez tenha sido um grande sonhador, pelo menos não desde que percebi que conquistar o mundo me ia dar uma carga de trabalhos, e já em criança era demasiado precoce, característica que carreguei para a idade adulta e a qual as minhas ex-namoradas podem confirmar, pelo que nunca tive o sonho de ser um astronauta ou semelhante. Para os outros um cosmonauta podia ser alguém com um fato espectacular em aventuras espectaculares com alienígenas e armas espectaculares, mas para mim o tenkonauta era apenas um pobre coitado que com tanta passeata em gravidade zero se arriscava a espectaculares problemas de osteoporose, atrofia muscular, redução da capacidade cardíaca, fadiga extrema, prostração, rotura de ligamentos e quebras de ossos, demasiada chatice só para estar onde nenhum homem esteve antes. Prefiro antes ir a Sintra, que também é bonito, e que também garante uma saudável dose de chatices se apanhar o comboio da linha. O problema é que, mais do que as orações da minha avô ou os sermões do senhor prior da freguesia que me meteram de castigo durante dois dias quando dei um beijo a uma menina, fui demasiado educado pela televisão. Ainda hoje recordo um episódio do Duarte & Companhia, em que aquele chinoca que andava sempre chateado teve o pé esmagado quando não se desviou de um carro, e o máximo de reacção que teve foi prender a respiração e passar a andar em bicos de pés. E juro que é verdade, que ainda hoje não tenho nenhum cuidado a atravessar a estrada com essa tão infantil ideia que se o carro me passar por cima o máximo que vou fazer é andar como se estivesse em cima de areia escaldada.

 

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publicado por Rui às 09:27
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