Terça-feira, 13 de Maio de 2008

Friends will be friends...

Começa-se com um simples olhar. O primeiro amigo que se faz é aquele que nós olhamos e esquecemos segundos depois, como que acometidos de uma memória de peixe. Pode ser outro bebé, o brinco da nossa mãe ou até mesmo a fralda suja que, por breves instantes esteve pousada ali perto.

Depois vem o Verbo. A palavra permite-nos interagir com outros como nós. Aí, qualquer pessoa que tenha dois braços, duas pernas e esteja durante mais que uma semana no nosso bairro é o nosso melhor amigo. Nessas alturas somos tão moldáveis que somos amigos de qualquer outro miúdo que esteja por perto, mesmo que não tenha gostos semelhantes, mesmo clube de futebol, mesma crença, mesmo que não goste de leite-creme.

A adolescência filtra mais um pouco. Aí agarramo-nos aos gostos comuns. Se alguém gosta do mesmo género musical que eu, é meu amigo. Se gosta da mesma banda, é o meu melhor amigo. Se gosta da mesma música dessa banda que eu, é o meu hiper-zega-melhor amigo. Então se tem aquele verso em especial, dessa mesma música, escrito na capa do caderno, sinto que seria capaz de dar a minha vida por esse amigo. E pensa-se que esse amigo será para sempre.

Tempos de faculdade, pós-adolescência, tornam os amigos sólidos. Porque começamos a dar os primeiros passos naquilo que se chama de "Escolha". Começamos a optar com quem nos damos. Não há um grupo enorme (ou diminuto) com que tomamos café que cresce e decresce sem qualquer controlo da nossa parte. Não. Somos nós que fazemos essas transferências. Optamos por não sair quando determinado "aquele" também fôr. Começamos a dizer a outras pessoas, com consciência de causa, "Não te gramo. Desculpa, a culpa não é tua, só não vou à bola contigo." E depois conversa-se sobre isso. Nesta altura pensa-se também que, aquele amigo com quem se partilhou casa durante anos, a quem se confidenciou TUDO (desde o medo dum teste até à existência de borbulhas em zonas embaraçosas) também esse amigo se julga que será para sempre.

O Trabalho arromba a porta, como polícias numa rusga. Encapuzado, não permite perguntas, não espera explicações. Apenas grita ordens enquanto nos aponta uma lanterna forte e uma arma à cara. E obedecemos. Nessa altura esticamos as mãos por toda a parte, telemóveis, messenger, e-mail... Procuramos e inventamos novas formas de não "perder o contacto" com os amigos. Aprendemos a mandar mensagens do género "Então, está tudo bem?" Mensagens que, ao fim ao cabo, não perguntam nada que realmente queiramos saber. Apenas temos necessidade de dizer "Hei, não te esqueças de mim!" mas não sabemos como o dizer. Deixamos de ter assunto. Sentamo-nos com os amigos que "eram para sempre" e damos por nós a falar do Passado e do clima. E o Passado é tecido curto para nos cobrir durante muito tempo. Empregos diferentes, cidades diferentes, hobbies diferentes, praticamente idiomas diferentes... Os novos amigos voltam a ser os dos espaços comuns. Os amigos do "por acaso". São os amigos que "por acaso" andam no mesmo ginásio, os amigos que "por acaso" trabalham na secretária ao lado da minha, os amigos que "por acaso" almoçam na mesa onde eu almoço. Serão sempre pessoas em quem nunca se irá confidenciar algo, apenas estranhos com quem, num dia de desatenção, talvez se poderá desbafar. Nada mais. Tacteia-se, fala-se de assuntos como música, cinema ou mesmo Filosofia de Vida de uma forma cautelosa pois as hipóteses de se encontrar alguém com gostos semelhantes é ínfima. Passamos a ter muito pouca capacidade de nos moldarmos aos outros. Não nos conseguimos incomodar. Dialogamos dentro do essencial.

Começam a existir porções enormes de nós que, se anteriormente eram do conhecimento de duas ou três pessoas selecionadas, agora são completamente obscuras, perdidas nas brechas infinitas do sofá das nossas mentes como trocos caídos do bolso ou o comando do vídeo.

Salvam-nos as pessoas a quem se pode enviar uma mensagem ocasional sobre um livro ou um filme, sobre um episódio caricato ou uma novidade e em quem sabemos que não irá cair em saco roto.

Como será daqui para a frente não calculo, mas creio que a estrada se estreitará. Novos locais de trabalho, novos conhecimentos. Gente que até poderá vir a jantar em nossa casa, passar uns dias, mas com quem nunca estaremos à vontade para partilhar uma caneca ou pedir um favor sem dizer "Obrigado. Depois temos que fazer contas. Eu insisto." Antigamente não era preciso...

publicado por Luís às 12:06
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1 comentário:
De L'etranger a 14 de Maio de 2008 às 22:17
é a maquina trituradora da nossa sociedade...


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