Domingo, 29 de Novembro de 2009

também é verdade

Há sempre um momento na minha vida em que alguém me tenta convencer que há quem esteja muito pior. Assaz, concedo, não devo jamais esquecer quem trabalha no Pingo Doce e é obrigado a levar com aquela história do, goste ou não, e não gosta, de certeza que não gosta, venho ao pingo doce de janeiro a janeiro, pelas oito horas do expediente. Música no mesmo sentido em que o estardalhaço provocado por deixar cair ao chão todo o serviço da Vista Alegre da minha mãe poderia ser considerado música, i.e., nenhum, e contagiante no mesmo sentido em que uma gripe, gripe normal, gripe de macho, não essa mariquice de nova gripe que anda para aí a ser alardeada como a nova peste bubónica e se está a revelar não mais que um flato, incómoda, sem dúvida, mas inofensiva, pode ser considerada contagiante. Ou contagiosa, sim, se por acaso quem me lê perceber que estou a deturpar o sentido dos termos para melhor encaixar a dicotomia música do pingo doce, i.e. gripe, i.e., contagiante/contagiosa, pode fingir que está a ler um texto do Eça de Queirós e escrever uma tese de pós-doutoramento sem nenhuma relevância no actual contexto sócio-económico acerca da deformação do significado dos termos enquanto potenciador da expressividade do artista. E se quem lê considera que estou a ser um idiota ao comparar-me ao Eça, pode também fingir que está a ler um texto da Linda Reis e que reencarnei o imortal poeta tal como a stripper encarnou a não tão imortal princesa Diana. E olhem que a Linda Reis até foi ao programa do Herman à pala disso, enquanto eu me fico por uma participação de exactos vinte e quatro fotogramas num filme do Mário Augusto e de rigorosos alguns segundos num sketche do Contra, portanto alguma isso da reencarnação coisa deve render. Vou apontar na agenda para mais tarde verificar. Tudo é mais fresquinho, tudo tem mais sabor.

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publicado por Rui às 20:44
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Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

os anéis no céu

integrantes numa sociedade democrática e como tal com uma opinião igualmente válida tarados que acreditam o Homem nunca ter estado na Lua e a Terra ser mesmo plana, e se parece o género de teoria da conspiração para a qual a Internet é terreno fértil, esta Flat Earth Society existia mesmo antes de William Gibson cunhar o termo ciberespaço em Neuromancer.

 

Roy Prol, que garantidamente não será membro dessa tão desnecessária seita, desenhou um vídeo no qual mostrou como seria a Terra e as suas principais cidades se o nosso planeta tivesse anéis como Saturno. Não que a ideia seja assim tão original, tanto nos livros Dune o planeta capital do Império é rodeado por anéis, como teorias científicas apontam que a Lua se teria formado a partir de uma cintura de anéis que em tempos rodeou o planeta.

 

 

 

As imagens partem de bases bem científicas, a colocação dos anéis em paralelo ao equador, as diferentes visões que o ângulo de curvatura iria provocar, as forças de gravidade necessárias para deixar a cintura estável, e ainda deixam muito espaço para a imaginação que o autor nem toca, basta pensar como qualquer religião tentaria justificar uma presenção tão incrível no Céu.

 

 

 

publicado por Rui às 22:40
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Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

P.A.C. Man

Há quem considere videojogos produções febris de uma indústria alicerçada no delírio juvenil, com constante bombardeamento sensorial e histórias baseadas em clichés supérfluos e com a espessura da minha folha de salário, mas é apenas uma questão de percepção das diferentes camadas  de contexto, conhecimento das variadas estruturas de composição, e assimilação da simbologia metafórica.

 

Afinal, o Pac-Man nunca foi acerca de um bicharoco amarelo a ser perseguido por fantasmas enquanto comia bolinhas, mas sim o drama de um astronauta acossado pelos espíritos dos que morreram para lhe permitir continuar a missão, e  se refugia nos ansiolíticos enquanto vaga perdido nos espaços por entre sistemas solares. Se isto era apenas um dos primeiros video-jogos, imagine-se a profundidade que  pelos nossos dias qualquer Gordon Freeman pode alcançar.

 

 

Através do Travis Pitts

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publicado por Rui às 23:20
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Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

no trabalho

Por estes dias encontrava-me na galhofa com as colegas de trabalho, quando a chefe - chefe, ou CEO, ou Chief Supreme Executive Commander, ou que mariquice chamam por estes dias a quem manda na tasca - aproximou-se com um ar sofredor e admitiu, a equipa estava sempre tão bem disposta, ela não conseguia perceber como conseguíamos.

 

Para início de conversa, a minha chefe tem sempre um ar sofredor, suponho que dorme mal de noite a reflectir o drama de ter um salário tão absurdamente superior a nós, mas a sua sentida confissão fez-me reflectir. Como conseguir esse elevado estado de boa disposição, quando o salário é miserável, os horários tão rígidos que o intervalo tem quinze minutos e direito a repreensão escrita se o esticar até dezassete minutos, com responsabilidades que não são as minhas (o responsável deve estar demasiado ocupado com outras coisas, talvez a praticar o hulla-hoop) não tenho regalias de carro, telemóvel, saúde e seguros, e tenho que lidar, i.e., aturar, clientes que se apresentam com "sou o motorista do presidente do BPI portanto já chega de brincadeira", dizem coisas como "mas eu não falo português?, é a letra X, X de francisco!", e simpaticamente avisam que vão atrás de mim com uma caçadeira ou que me vão regar com gasolina. E sem direito a Internet, claro, nem pensar em carinhosamente ficar a tratar da minha Farm Ville nos minutos vagos. Até porque não existem.

 

Graças à minha chefe percebi que não tenho nenhum motivo para ficar na risada e fui a correr em lágrimas para casa, para me deitar em posição fetal agarrado ao meu Snoopy de peluche, e espero que esteja orgulhosa de si própria.

 

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publicado por Rui às 10:22
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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

emoções

A principal diferença entre o Homem e Animal é a capacidade extravagantemente absurda que esses humanos alcançam, não só na arte de pensar, quanto na arte de sentir. Enquanto mesmo um cão, talvez a espécie mais próxima de nós, exprime apenas emoções básicas - alegria, medo, tristeza, surpresa, raiva - qualquer pessoa consegue detonar numa explosão atómica de variedades emocionais. Mesmo as expressões mais simples podem ter diferentes graus de intensidade. O susto pode levar ao medo, o medo ao choque, o choque ao terror; o desconforto pode levar à melancolia, a melancolia à tristeza, a tristeza ao luto. E por aí fora.

 

Apesar disso, é ainda mais provável que duas emoções surjam juntam, tal como duas cores primárias que são adicionadas para criar uma terceira, e sejam expressas. O nojo e a surpresa levam ao "tu comeste isso?!". A empatia e a tristeza a um "ah, puta que pariu, até a MIM me doeu!". A raiva e a surpresa descambam no "¿¡que cojónes!?" - em espanhol, por supuesto, apenas e não só porque estou a aprender a língua, mas porque é de longe a linguagem mais indicada para peixeiradas e afins.

 

Mais incrível é termos sentimentos acerca dos próprios sentimentos, e emoções em cima de emoções. O adolescente que em vez de tentar afastar a depressão, enfia-se no quarto a fingir que é dor a dor que deveras sente, e a sentir-se bem por se sentir mal. O desconhecido que manda um espectacular tralho  à nossa frente, o que nos faz disfarçar uma gargalhada e sentir mal por nos estarmos a rir. Há, de facto, um imenso universo de possibilidades em todas estas complexidades da Emoção.

publicado por Rui às 19:45
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