Sábado, 19 de Julho de 2008

o panda do kung-fu

É verdade que antes sequer de ir ver O Panda Do Kung-Fu já estava com os azeites em relação ao filme. O primeiro problema é que nesta fascinante cidade de Aveiro acharam por bem só exibir o filme na versão portuguesa, e eu não apoio em nada a dobragem de filmes, com ou sem "grande qualidade das vozes na versão portuguesa". Aqui está um país que se queixa de as crianças não lerem, onde o Governo instaura um programa para ensinar cada vez mais cedo o inglês, e numa rara oportunidade de juntar os dois conceitos, i.e., ler português e ouvir inglês, manda-se a ideia à fava e dá-se às crianças o que elas já ouvem todos os dias. Mais, porque a dobragem permitir a quem não sabe ler perceber a história é um argumento tanto mais falacioso, porque se os petizes ainda não sabem ler, ainda não conseguem perceber os conceitos do filme, algo demasiado bem demonstrado na quantidade de questões atiradas durante a sessão como "mas e o que é que aconteceu agora, pai?", "e ele morreu, pai?", "ah, mas e ele só está a dormir, pai?". O segundo problema é que alguns dias antes me garantiram ser um filme "com moral", e embora não tenha nada em princípio contra morais, nos filmes infantis estas costumam ser, bem, falsas. Mentirosas, se preferirem. Um qualquer resumo do filme publicado naqueles folhetos de publicidade dos cinemas Lusomundo deixava logo a perceber que o panda do título, apesar de gordo, preguiçoso, anafado, guloso e sem nunca ter enfiado um treino de kung-fu na vida, iria rapidamente tornar-se um mestre incontestado da arte apenas pelo desígnio arbitrário da história, que lhe dá o bonito nome de "só tens de acreditar". E depois, porque a melhor ideia de um panda mestre de artes marciais já foi deixada em "The Frozen Throne", onde o panda é um embriagado mestre que percorre o mundo à procura das melhores ervas para as bebidas alcoólicas, o que está mesmo longe de ser um bom modelo para as crianças. E todos sabemos como os bons modelos são divertidos.

 

 

Mas o filme, então. O panda Po é escolhido como um lendário guerreiro, e depois de um atribulado treino marcial, derrota o vilão. E é isto, o que me faz perguntar qual é a fonte de ideias aleatórias onde os autores vão buscar estas histórias, isto é coisa de Karate Kid e aquele filme em que um puto derrota o Van Damme que é o mau da fita. Não pode ser assim tão difícil arranjar ideias novas, aqui vai uma: lá que o panda gordo queira ser um grande mestre é problema dele, porque depois de anos sem mexer uma palha por mais que treine não tem hipótese de passar de um estudante mediano. Continua gordo, alvo da chacota geral, o mestre perde a paciência com ele, e acaba por desistir depois de se declarar à tigresa boazona, que se ri das apaixonadas intenções, zomba das suas lágrimas e estala-lhe os dedos enquanto se passeia com o tigre-das-neves, de maravilhoso aspecto, péssimo carácter e um Bentley GT Continental. Apenas isto e já está a milhas de distância de noventa porcento das coisas que inventam por estes dias. Agora, digo que a animação está mesmo muito boa! Po é tão fofo e adorável que dá vontade de o abraçar como a um grande boneco de peluche, os efeitos dos cenários são fabulosos, e a sequência inicial é um belo toque, pintada como se fosse uma pintura chinesa antiga. Mas se tiverem de contar os tostões para as refeições diárias, ou se forem daquelas pessoas para quem sexo é actividade constante, não vale a pena perderem dinheiro ou tempo no filme. Não assume nenhum risco, a história é linear, a moral fez-me revirar os olhos mais do que uma vez, e sem contar a parte do sonho logo ao início, não teve momento nenhum que me fizesse suster a respiração para a largar com um "car****!". Esperem que aquele amigo saque compre a versão original e depois peçam para copiar ver.

 

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publicado por Rui às 20:42
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3 comentários:
De Nuno a 21 de Julho de 2008 às 20:40
Antes de mais, concordo com a tua tese: Leitura de português mais audição de inglês é que me fez progredir nas duas áreas. E sem falsas modéstias, sou bem competente em ambas.

Quanto à estória do Panda e tal, já se está a ver que é uma coisa batida, mas lembra-te: quem vê estes filmes não conhece a ópera espacial do Star Wars, ou os grandes enxertos de pancume do Sr. Van Damme. Eles ainda podem ver o filme e achar original. Mas confesso que a tua narrative é bem mais inovadora. Talvez tivesse mais dificuldade em obter orçamento para um longa metragem, mas uma curta deve dar!

Pequena correcção do meu foro: É um Bentley Continental GT ( nisto dos carros o GT costuma vir no fim do nome, excepto nos GT turbo e GTR).

Aquele abraço!


De Rui a 21 de Julho de 2008 às 21:10
É verdade que para os miúdos tudo isto é um maravilhoso mundo a ser descoberto, sem estarem com divagações que tudo isto é tão batido, e etc., mas também o Star Wars na altura foi uma novidade ao meter o que era uma história de samurais em cenário sci-fi. De qualquer maneira, alterei então a questão do GT (mil perdões pela gralha, mas sabes que esse decididamente não é o meu foro!) e meti um pequeno acrescento a fazer uma mui necessária referência a esse WCIII! ;)


De Mauro Maia a 28 de Julho de 2008 às 18:01
A velha questão da dobragem dos filmes... Por um lado, quantos países se podem orgulhar, como nós, de poder exibir os filmes originais com legendas e o público ver e apreciar? Sempre me recordo de ver filmes, desde pequeno (lembras-te das Festas de Natal da Caixa?) e o facto de ser falado em Inglês e dobrado nunca constituiu um problema. Quando muito ajudou a desenvolver as duas características que apresentas: tinha de me esforçar para ler e compreender o Português escrito das legendas e ainda fui acostumando os meus ouvidos à sonoridade da língua inglesa. As não-dobragens desenvolveram a minha capacidade de leitura do Português (e a Necessidade, como é bem sabido, é a mãe de todas as Inovações/feitos) como plantou as sementes para a minha proficiência anflófona. O filme, em si mesmo, dobrdo, perderá um dos seus pontos princip+ais e que me poderia levar ao cinema para o ver/ouvir: a voz da Angelina «très» Jolie (mau grado o seu evidente mau gosto em termos de homens). Sacanas dos tipinhos da indústria de exibição cinematográfica em Potugal: durante anos foram os péssimos títulos em Português (charopadas como «Desafio Total» para o «Total Recall» ou «Perigo Eminente» para o «BladeRunner» ou mesmo «O Protegido» para «Unbreakable») e agora andam a cortar-nos as vozes das meninas sensuais do bairro de LA glamoroso de nome Hollywood(land originalmente). Damn you!


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