Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

oito desejos

O Bloquito(s) foi convidado, pela primeira vez na sua curta e incrivelmente rica história, para um típico desafio da Internet de responder a várias questões e passar o questionário a outros autores. Se geralmente olho de lado este tipo de iniciativas, e de quem se mete nestas coisas não deve ter nada melhor para fazer na vida, recordei-me que se diverte mais na discoteca quem vai para o meio da pista dançar e acumular hipóteses de ir acompanhado para casa, do que quem fica a um canto a ranhosar contra quem está a fazer figuras tristes e que invariavelmente acaba a noite a assistir sozinho ao "Quentes e Fogosas IX" ou ao "Chocolate Preto... Em Todos Os Buracos!".

 

Este desafio apresentou diversas questões de operacionalização. A primeira regra estipulava apresentar oito sonhos meus, e reflecti se não devia definir em rigor o que era isso de "sonho", se algo impossível de ocorrer, se um objectivo estupidamente complicado mas do qual não desistimos, como os eternos Coiotes atrás de Papa-Léguas que somos, ou se também podia incluir aquele género de sonhos de adolescente que me faziam acordar a meio da noite e ir a correr enfiar o pijama no cesto de lavar roupa. Decidi-me a deixar de me comportar como um idiota, algo em que os meus amigos estão sempre a insistir, porque ainda que esta pequena tese seja plena de brilhantismo e inteligência, já se sabe que o lobby universitário nunca permitirá que seja estudada nas academias do futuro como imensa referência que na verdade é, pelo que não tenho de me estar aqui a armar com mariquices de operacionalização de conceitos e trinta páginas de bibliografia, até porque nunca ninguém lê as referências da bibliografia, um amigo meu uma vez deixou a página d' A Bola como referência bibliográfica para um trabalho de Ciências Farmacêuticas, e ninguém lhe chateou a cabeça.

 

Depois de apresentar os sonhos, o que quer que isso de sonhos fosse, claro, o seguinte era passar a batata quente a outros autores, mas decidi-me a saltar este passo, racionalizando assim o meu medo e rejeição de outros seres humanos com a explicação que muitos dos autores que me são próximos não respondem a este tipo de desafio, bastando apresentar o Cognosco do meu irmão, científico, matemático, e rigoroso, para perceber como um desafio assim ficaria deslocado. Para não parecer que estaria para aqui a fazer batota, decidi-me a dedicar um primeiro sonho a expressar como desejaria não ter de passar este desafio a outros autores.

 

Finalmente, era necessário eliminar as respostas mais óbvias de ser meu mais profundo desejo a paz mundial ou o fim da fome. Este tipo de respostas faz-me lembrar aquelas pessoas que no liceu nem eram assim muito inteligentes, ou com uma grande personalidade, mas a quem bastava serem medianamente atraentes para receberem imensos cartões no Dia de S. Valentim, e entravam pela escola adentro com um molho de prendas cheias de corações vermelhos, e um sorriso rasgado, sobre o olhar invejoso daqueles que não recebiam nada e passavam o dia a choramingar aos outros que não recebiam nada, como aquilo era tudo uma merda consumista, e que eles não se metiam em nada daquilo, e que quando elas quisessem uma vida a sério iam ter com eles. Por acaso admito que devia ser lixado para os pobres coitados, mas eu não tinha culpa de ser tão bonito e espectacular que roubasse todas as atenções. Claro que A Vida é o que é, e se num filme esses mesmos diabos estariam passados vinte anos a serem gestores de bancos e com mulheres espectaculares, na vida real o mais certo é estarem na cadeia a servirem de carruagem de comboio, enquanto eu fiquei ainda mais belo. Pode ser que A Vida seja injusta, mas é o que é. Este palavreado todo porque há sonhos, assim como pessoas, que apenas são escolhidos por ficarem bem, não por terem uma grande profundidade, mas da minha parte não o irei fazer.

 

I. Não ser necessário passar este questionário a outros autores: certo, este já está.
 

II. Que a Adriana Lima fique loucamente apaixonada por mim: este também já está! Admito que começo a achar piada a isto.

 

III. que quem lê livros do Osho se convença que não são uma solução para tudo na Vida: se os primeiros pontos descritos até aspiravam a uma viagem agradável, este é o momento em que tudo se afunda mais rapidamente que aquelas pedras que se atiram para o lodo da Ria de Aveiro quando está vaza. Não tenho nada contra o Osho nem contra mensagens espirituais, ainda que obviamente nada façam para resolver os meus problemas de um mercado de trabalho emprego decente e sexo espectacular, mas fico com a sensação de haver quem interprete aquela ideia de cada um de nós ser tão especial demasiado à letra, a espécie de gentes que pedem tudo e não dão nada, que diz coisas como "eu faço o que me apetece e ninguém tem nada a ver com isso", que procede exactamente ao contrário do que defende, que se torna mais insuportável que uma criança mimada aos berros, e que de uma maneira geral se comporta como uma fenomenal idiota. Admito entretanto que é uma mesquinha sensação de prazer saber este género de pessoas esmagada pela Vida, como os insectos que são.

 

IV. que quando cai chuva miudinha, ninguém num raio de cento e cinquenta quilómetros em meu redor se ponha a repetir ad nauseam a história do, ai, safa!, que esta chuvinha, parecendo que não molha!...: agora que começaram as chuvas, não há dia/hora/minuto/segundo, em que alguém não insista no óbvio. Sim, molha, é sabido que molha, não é necessário estar a explicar que molha, porque todos percebemos que molha. Esta é uma questão da família da outra, com a qual partilha os traços genéticos de razoavelmente elevados níveis de parvoíce, de quem insiste, sempre que o horário de Verao muda, suspirar que ainda no dia anterior podia ficar mais uma hora na caminha, quando é mais que óbvio que não, não ia ficar mais uma hora na caminha.

 

V. que alguém por uma vez na vida me arranje uma prenda de Natal verdadeiramente espectacular e original: sei que na noite do dia vinte e quatro não vou arregalar os olhos e exclamar, nunca esperei!..., sendo garantido que os livros, DVD, jogos, meias e pijamas da praxe marcarão presença, e juro já aqui que faria amor louco e apaixonado com quem quer que me entregasse uma prenda tão louca e original que me fizesse cair de joelhos e declarar amor eterno. Estás a ler isto, Adriana?

 

VI. cultivar de outra maneira as relações pessoais: tenho genuína inveja de quem se consegue dedicar a diversas e variadas individualidades, devo ser a pessoa à face da Terra que pior trata amigos, conhecidos e familiares, incluíndo não dar notícias durante semanas, não responder a mensagens, ficar meses sem aparecer, recusar saídas para convites apenas porque não me apetece, enfim, um chorrilho de disparates que seguem por aí fora, e se começar a falar de relações amorosas, espero que tenham os lenços à mão, porque tenho o péssimo hábito de me apaixonar por quem seja absolutamente inacessível, incluíndo, mas não limitado a, mulheres demasiado velhas, demasiado novas, demasiado inteligentes, demasiado ricas, demasiado lésbicas, ou demasiado comprometidas, o que me deixa sempre a sentir como devia ser diferente e melhor para as alcançar, sendo respectivamente mais velho, mais novo, mais inteligente, mais rico, mais mulher, ou sei lá, o que não faz maravilhas nem à minha auto-estima nem às minhas noites de sono, e deixa quem me conhece melhor a meter as mãos à cabeça com o lá vamos nós outra vez! Pode haver quem diga que o problema é não reconhecer que sou belo exactamente como sou, mas essas pessoas irão para o Inferno por mentirem.

 

VII. que a simples referência do nome Bloquito(s) deixe legiões de fãs em maior estado de histerismo que um concerto dos Tokyo Hotel: vai acontecer, ainda vai acontecer, mesmo que seja daqui a tantos anos que por essa altura o Bill Kaulitz tenha ficado careca e ninguém se lembre dele e tenha de trabalhar em dois contact center, mesmo tendo sofrido um tumor cerebral e proibido pelo médico de fazer esse tipo de trabalho, porque não consegue arranjar nada mais para se safar a si e aos dois filhos.

 

VIII. conseguir dar um salto mortal de costas: sim, exactamente o que está escrito, sem metáforas. E não, não vou explicar.

 

Etiqueta:
publicado por Rui às 23:21
ligação | comentar
1 comentário:
De Mauro Maia a 5 de Dezembro de 2008 às 10:24
Também eu já «participei» em algo desse género, pela pessoa que me «desafiou» (as if) do que pelo «desafio» em si mesmo (sempre questões estereotipadas do género que se poderia encontrar numa qualquer Marie Claire). TIve «direito» a um «selo» de ter «aqueles vegetais ora verdes ora vermelhos que são bons para fazer saladas» (para usar a expressão do MEC)...


Comentar post

Março 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

29
30
31


Pesquisar

 

Arquivos

Março 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Maio 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Artigos recentes

assim a modos que daquela...

coisas em que não se pens...

também é verdade

os anéis no céu

P.A.C. Man

no trabalho

emoções

à procura...

#1

intenções

RSS