Domingo, 29 de Novembro de 2009

também é verdade

Há sempre um momento na minha vida em que alguém me tenta convencer que há quem esteja muito pior. Assaz, concedo, não devo jamais esquecer quem trabalha no Pingo Doce e é obrigado a levar com aquela história do, goste ou não, e não gosta, de certeza que não gosta, venho ao pingo doce de janeiro a janeiro, pelas oito horas do expediente. Música no mesmo sentido em que o estardalhaço provocado por deixar cair ao chão todo o serviço da Vista Alegre da minha mãe poderia ser considerado música, i.e., nenhum, e contagiante no mesmo sentido em que uma gripe, gripe normal, gripe de macho, não essa mariquice de nova gripe que anda para aí a ser alardeada como a nova peste bubónica e se está a revelar não mais que um flato, incómoda, sem dúvida, mas inofensiva, pode ser considerada contagiante. Ou contagiosa, sim, se por acaso quem me lê perceber que estou a deturpar o sentido dos termos para melhor encaixar a dicotomia música do pingo doce, i.e. gripe, i.e., contagiante/contagiosa, pode fingir que está a ler um texto do Eça de Queirós e escrever uma tese de pós-doutoramento sem nenhuma relevância no actual contexto sócio-económico acerca da deformação do significado dos termos enquanto potenciador da expressividade do artista. E se quem lê considera que estou a ser um idiota ao comparar-me ao Eça, pode também fingir que está a ler um texto da Linda Reis e que reencarnei o imortal poeta tal como a stripper encarnou a não tão imortal princesa Diana. E olhem que a Linda Reis até foi ao programa do Herman à pala disso, enquanto eu me fico por uma participação de exactos vinte e quatro fotogramas num filme do Mário Augusto e de rigorosos alguns segundos num sketche do Contra, portanto alguma isso da reencarnação coisa deve render. Vou apontar na agenda para mais tarde verificar. Tudo é mais fresquinho, tudo tem mais sabor.

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publicado por Rui às 20:44
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Sexta-feira, 7 de Março de 2008

Lisboa

Uma das questões de morar em Lisboa é que se passa a ficar no centro das notícias, quando não mais os acontecimentos são algo à distância do ecrã da televisão. Um segurança esfaqueado no Colombo? Estava lá. Inundações invadem a cidade? Ainda nem sabia das notícias e já chegavam a casa a avisar que a cidade "estava um caos". Manifestações com milhares de participantes? Preso dentro do autocarro por causa dos congestionamentos provocados. Professores juntam-se às centenas em frente ao Ministério para mostrar o desagrado pelas políticas da ministra? Com o Ministério da Educação mesmo em frente da casa, os constantes berros e músicas de intervenção não me deixam mas é dormir!

 

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publicado por Rui às 20:04
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Domingo, 2 de Março de 2008

Bully For Bin

O bullying é assim um fenómeno que anda a despertar a atenção dos especialistas. Especialista é isto: descobre algo que sempre existiu e dá-lhe um nome integrado e sustentável. A partir daí ganha a vida como "o pai disto" ou o "mais respeitado investigador daquilo". O bullying é aquela moda, que sempre existiu, de massacrar quem fosse mais feio, mais tótó, ou que de alguma maneira mais se destacasse da multidão (e se a maneira de se destacar na multidão podia ser extensa: usar óculos ou aparelho dentário, ter borbulhas ou espinhas, com altura ou peso a mais ou a menos, demasiado bonito ou demasiado feio, etc, etc, etc.). Agora, |activar modo de demagogo foleiro|, sim, porque o bullying é uma das mais preocupantes tendências da sociedade contemporânea, à qual urge encontrar soluções integradas e sustentávels, sob o risco de deixar as vítimas escalarem numa espiral de violência e degradação |desactivar modo de demagogo foleiro|, mas o mais certo é que qualquer pessoa saudável leva com um bully, mais tarde terá oportunidade ele próprio de se tornar um, e com um crescimento integrado e sustentável, acabar por livrar os mais pequenos daqueles que os atormentam, dando-lhes a eles a oportunidade de se tornarem um bully e assim dar continuidade à grande roda da vida que é a escola. Não para os especialistas, para quem qualquer vítima fica logo traumatizada, a precisar de tratamento psicológico e um viciado em Prozac e o Seroxat incapaz de se relacionar com as pessoas, para sempre! Daí a um Seung-Hui Cho não tarda.

 

Agora, o que faltou ao Bin Laden e ao assecla Ayman Al-Zawahiri, lá enquanto andavam pelos liceus das Arábias, foi alguém que lhes mandasse uns quantos cachaços. Quem leva com um bully, se tiver um mínimo de esperteza, aprende a metê-lo a correr. É catarse: ao saber afastar os agressores, aprende também a afastar os fantasmas que fizeram, em primeiro lugar, com que tivessem de levar com as chatices. E podem seguir a vida, sem ficar a pensar em vinganças e coisas feias. Mas os senhores da Al-Qaeda eram os perfeitos tótós: filhos de papás ricos, bons alunos e maus desportistas, Bin Laden era frágil e de modos suaves, Zawahiri não teve uma única namorada até aos trinta anos. E se gostavam de inventar histórias! Além de todas aquelas parvoíces de andarem a servir a vontade de Deus, lá o Bin, quando levou com um bombardeamento soviético no meio do Covil do Leão, ficou tão borrado de medo que desmaiou em pânico - e, no entanto, foi dizer que em tamanha paz espiritual que até adormeceu. Quanta gente vi eu a levar umas rasteiras nas aulas de Educação Física por inventar muito menos! Tivessem estes senhores levado com um massacrante chorrilho de graçolas sobre as suas performances sexuais, e teriam aprendido a libertar-se de pensamentos mesquinhos e de outras ideias feias. Como nada disso aconteceu, aí está o mundo como está.

 

Nota: por feliz coincidência (e se o Bloquito é feito de felizes coincidências!), o título deste artigo acabou por se assemelhar a "Bully For Bugs", uma daquelas obras-primas de cinco minutos que o Chuck Jones disparava à mesma velocidade com que neste recanto se atiram patacoadas de parvoíces. E se isso não basta para vos convencer da genialidade deste Senhor - assim mesmo, com S maiúsculo - apanhem a sequência em que Bugs aparece com a "El Jarabe Tapatío", a dança do chapéu. Por favor, uma pausa para sete minutos e doze segundos de transcendência espiritual...

 

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publicado por Rui às 18:59
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Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

Abreu, dá cá o meu!

E pergunto-lhe, incauto leitor, qual é a semelhança entre mim e a Luciana Abreu?

 

Momento de pausa para o leitor se maravilhar com a técnica estilística de iniciar o artigo com um choque que capta logo a atenção, técnica utilizada, ainda que obviamente com muito menos sucesso, na sequência inicial d’ “O Resgate do Soldado Ryan”, ou nos primeiros segundos da música da Guerra das Estrelas.

 

Ao contrário do que vão pensar, não é uma questão gratuita, daquelas feitas para atrair ao Bloquito(s) quem anda a procurar por “Luciana + Abreu + seios” no Google. Não, é algo com toda uma profundidade, semelhante em relevância à problemática dos velhos que se sentam no café a falar sozinhos. Alguma vez apanharam um destes? Durante esta semana sentei-me a jantar, e na mesa ao lado estava um, a falar para o ar, a gesticular irritado, a abanar a cabeça hesitante. Sozinho, lá está. Aposto que estava a pensar em algo que os irrita tanto a eles como me irritam eles a mim, nomeadamente e mormentes, a mania que as mulheres têm de passar a vida a choramingar que os homens são uma cambada de parvos, idiotas, cabrões, palhaços, imbecis, cromos, burros e bobalhões, entre outros mimos. Não é uma questão que me perturbe a mim, claro, porque após quatro anos de Bloquito, fiquei detentor de todas as verdades do Universo, e estas questões menores não me incomodam – mas se atormentam o atormentado idoso!

 

Pois, e eu sei que é isto que cada velho que se senta num café a falar sozinho está a pensar, os homens são mesmo, todos eles, uma cambada de parvos, idiotas, cabrões, palhaços, imbecis, cromos, burros e bobalhões. E a culpa, reflecte o reflectivo anoso, é das mulheres, claro. Porque se é um facto tão profundo que os homens fazem qualquer coisa pelas mulheres, porque são eles uma cambada de tudo o atrás descrito? Porque elas gostam assim, e a a partir do dia em que exijam que eles deixem de ser uma cambada de parvos, idiotas, cabrões, palhaços, imbecis, cromos, burros e bobalhões, os homens não terão hipótese nenhuma que não seja deixarem de o ser. E apesar de não ter percebido nada do que o raio do velho sentado ao meu lado dizia, sei que era isto que ele dizia.

 

Sei também que a doce Luciana gostaria de um homem que com ela partilhasse o facto de ter visto o seu contrato rescindido por uma certa e determinada grande empresa portuguesa (gostaria de salientar que o facto de ser uma "grande empresa" não quer dizer que seja uma "empresa grande", da mesma maneira que uma boa mulher não é necessariamente uma mulher boa). Vai daí que eu, enquanto bom homem, e igualmente homem bom, vi também o meu contrato com essa certa e determinada empresa portuguesa não renovado. Mas apenas por causa da Luciana, a quem aproveito para mandar uma beijoca de agradecimento. E uma outra para agradecer a oportunidade de ter utilizado, pela primeira vez num artigo, a palavra “bobalhões”. Muito obrigado.

 

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publicado por Rui às 11:25
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