Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

previsões

Tão inevitáveis e indesejadas quanto uma crónica do Carlos Castro, aí estão as previsões para dois mil e nove, para me fazerem acordar a meio da noite a reflectir como é que nós, Humanidade, esperamos evoluir com estas manias do ano novo, manias essas que podem ser divididas em dois grupos. O primeiro, de quem começa o ano a apontar previsões para o novo ano, algo irrisório, porque nem é necessário explicar como não é possível fazer previsões para algo tão destituído de razão, lógica ou intuição quanto a Vida. E em segundo, quem começa o ano a apontar quem aponta previsões, algo num patamar ainda maior de inutilidade, como se fosse, enfim, necessário explicar que não é possível fazer previsões para algo tão destituído de razão, lógica ou intuição quanto a Vida! Felizmente que existo eu, o terceiro género, aquele que aponta tanto quem aponta, como os que apontam quem aponta.

 

Nisto do Ano Novo sobejam, de resto, duas questões. A primeira porque não se percebe como, tendo o ano trezentos e sessenta e cinco dias divididos em doze meses, isto dos mais sinceros votos de um espectacular ano seja deixado, no máximo, até ao segundo dia do primeiro mês do ano. E os restantes trezentos e sessenta e três dias, não contam? Porque é que ninguém me deseja um máximo ano, sei lá, em Agosto, quando está um tempo muito mais agradável e muitos mais decotes andam por aí? Não pode haver melhor altura para deixar os votos de um inefável ano que durante o Verão, quando anda toda a gente leve e airosa, mas insistem nesta patranha de deixar os votos de um inenarrável ano durante o Inverno, quando chove, andam todos carrancudos e o metro de Lisboa é um inferno pegajoso de humidade.

 

Mais ainda, porque não se percebe exactamente que votos de um "bom" ano são esses, um voto tão críptico e rebuscado que se torna óbvio que quem o lança não tem qualquer noção de operacionalização de conceitos, delineação de estratégias, ou sequer visão de médio e longo prazo. Não basta lançar votos, é necessário perceber exactamente o que se percebe por isso de "bons" votos, como desenhar uma estratégia de convergência dos diversos actores sociais na busca desses objectivos, e em que intervalos de tempo se devem questionar e quantificar os objectivos propostos. Sem isso, são apenas votos a abençoar a minha vida nos dois primeiros dias do ano e a amaldiçoá-la nos restantes trezentos e sessenta e três. É por isso que não vou aqui deixar nada disso de um trascendente ano para todos, não, os meus votos vão para o que realmente importa: para todos uma grandiosa vida de óptimos empregos e sexo espectacular.

 

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Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

osho

Costumam perguntar-me que relação tenho com os livros do Osho, com alguns exemplares na estante e várias referências no Bloquito(s). Na verdade ninguém me pergunta isso, geralmente perguntam-me "o que é que estás a fazer?", não no sentido de "estou realmente com imenso fascínio pelo que estás a executar neste exacto momento!", mas mais como "estou-te a ver outra vez a fazer asneirada das grandes mas dou-te cinco vírgula trinta e sete segundos para te explicares antes de perder a cabeça e levares já aqui mais uma pissada!", mas vou responder à mesma. Sou um fala-barato, é o que é.

 

Uma vez que era um daqueles ateus ferrenhos que se consideram os maiores quando percebem que o Deus do Antigo Testamento é um filho da mãe vingativo que não tem nada a ver com o oceano de paz e tranquilidade do Novo Testamento, isto do Osho começou, como não podia deixar de ser, com uma menina toda zen, e porque tenho esta péssima tendência de simular as pessoas que conheço porque nunca me considero suficientemente bom, comprei um tal livro só para me armar. Para os mais curiosos, a história acabou como todas as minhas histórias, i.e., ela a admitir que eu era tão bonito exactamente como era, e a prosseguir para conhecer pessoas muito mais fascinantes e espectaculares. Mas admito que terá sido uma fase a surpreender muita gente, que viam juntar-me a um mundo espiritual como meter o Incrível Hulk numa mesma sala com o Wolverine, se me perdoam a comparação incrivelmente nerd.

 

Mas o Osho, então. Não revelo o segredo da bomba atómica à Alemanha Nazi se disser que vivemos tempos francamente fodidos, primeiro porque ninguém está satisfeito com o que tem, vários milhares de idiotas fazem objectivo de vida destruir qualquer satisfação que se possa ter, que bastou regressar maravilhado da Cidade Das Luzes para haver quem apontasse como tinha feito muito mal em andar a passear assim, e que de certeza não tinha gostado "assim tanto" de Paris, e segundo porque é da natureza humana estar sempre insatisfeito, o que se por um lado permite reconhecermos os nossos erro e admitir que o "The Knight Rider" já nem na altura era assim tão espectacular, por outro tenho a certeza de ser essa a razão de muitas vezes acordar a meio da noite sem  conseguir voltar a dormir. Há quem se tente enganar a dizer que está muito bem porque, enfim, há quem esteja pior, mas não é por o pobre coitado da sala ao lado estar com um cancro intestinal terminal que me vou sentir melhor acerca das minhas hemorróidas.

 

A missão não é então tanto choramingar como a Vida é bela, porque se há verdade em relação à Vida é ser cruel e sem qualquer ponta de razão, lógica ou intuição, basta verificar que sou daquele género de pessoa que adora ser rejeitado, e que a melhor maneira de me conquistarem é sujeitarem-me a rejeições daquelas de ir às lágrimas, mas se pensarem em demonstrar qualquer tipo de interesse vou demonstrar como sou um covarde emocional e fugirei a sete pés. Sim, é um mundo tramado, ainda para mais com uma hiperactiva mente como a minha, que não consegue deixar de reflectir em tudo, desde as actuais microtendências que reestruturam o mapa geopolítico mundial, até aos caminhos que a formiga em cima da mesa do pequeno-almoço está a tomar em direcção ao Suchard Express, e o Osho e asseclas propõem-se a meios de eliminar o lixo mental que se vai acumulando nas nossas cabeças ao longos dos dias, meses, anos, décadas, e que nas piores alturas sempre aproveita para mostrar o seu aroma putrefacto. Mesmo admitindo que o cérebro humano será das coisas mais formidáveis que a Evolução inventou, é impressionante a quantidade de caca que consegue acumular, que eu ainda estou para perceber que tipo de alto propósito evolucionário serve, após vinte anos, estar para aqui a trautear a música completa do Vitinho. "Está na hora, da caminha, vamos lá dormir!", e etc...

 

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Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

oito desejos

O Bloquito(s) foi convidado, pela primeira vez na sua curta e incrivelmente rica história, para um típico desafio da Internet de responder a várias questões e passar o questionário a outros autores. Se geralmente olho de lado este tipo de iniciativas, e de quem se mete nestas coisas não deve ter nada melhor para fazer na vida, recordei-me que se diverte mais na discoteca quem vai para o meio da pista dançar e acumular hipóteses de ir acompanhado para casa, do que quem fica a um canto a ranhosar contra quem está a fazer figuras tristes e que invariavelmente acaba a noite a assistir sozinho ao "Quentes e Fogosas IX" ou ao "Chocolate Preto... Em Todos Os Buracos!".

 

Este desafio apresentou diversas questões de operacionalização. A primeira regra estipulava apresentar oito sonhos meus, e reflecti se não devia definir em rigor o que era isso de "sonho", se algo impossível de ocorrer, se um objectivo estupidamente complicado mas do qual não desistimos, como os eternos Coiotes atrás de Papa-Léguas que somos, ou se também podia incluir aquele género de sonhos de adolescente que me faziam acordar a meio da noite e ir a correr enfiar o pijama no cesto de lavar roupa. Decidi-me a deixar de me comportar como um idiota, algo em que os meus amigos estão sempre a insistir, porque ainda que esta pequena tese seja plena de brilhantismo e inteligência, já se sabe que o lobby universitário nunca permitirá que seja estudada nas academias do futuro como imensa referência que na verdade é, pelo que não tenho de me estar aqui a armar com mariquices de operacionalização de conceitos e trinta páginas de bibliografia, até porque nunca ninguém lê as referências da bibliografia, um amigo meu uma vez deixou a página d' A Bola como referência bibliográfica para um trabalho de Ciências Farmacêuticas, e ninguém lhe chateou a cabeça.

 

Depois de apresentar os sonhos, o que quer que isso de sonhos fosse, claro, o seguinte era passar a batata quente a outros autores, mas decidi-me a saltar este passo, racionalizando assim o meu medo e rejeição de outros seres humanos com a explicação que muitos dos autores que me são próximos não respondem a este tipo de desafio, bastando apresentar o Cognosco do meu irmão, científico, matemático, e rigoroso, para perceber como um desafio assim ficaria deslocado. Para não parecer que estaria para aqui a fazer batota, decidi-me a dedicar um primeiro sonho a expressar como desejaria não ter de passar este desafio a outros autores.

 

Finalmente, era necessário eliminar as respostas mais óbvias de ser meu mais profundo desejo a paz mundial ou o fim da fome. Este tipo de respostas faz-me lembrar aquelas pessoas que no liceu nem eram assim muito inteligentes, ou com uma grande personalidade, mas a quem bastava serem medianamente atraentes para receberem imensos cartões no Dia de S. Valentim, e entravam pela escola adentro com um molho de prendas cheias de corações vermelhos, e um sorriso rasgado, sobre o olhar invejoso daqueles que não recebiam nada e passavam o dia a choramingar aos outros que não recebiam nada, como aquilo era tudo uma merda consumista, e que eles não se metiam em nada daquilo, e que quando elas quisessem uma vida a sério iam ter com eles. Por acaso admito que devia ser lixado para os pobres coitados, mas eu não tinha culpa de ser tão bonito e espectacular que roubasse todas as atenções. Claro que A Vida é o que é, e se num filme esses mesmos diabos estariam passados vinte anos a serem gestores de bancos e com mulheres espectaculares, na vida real o mais certo é estarem na cadeia a servirem de carruagem de comboio, enquanto eu fiquei ainda mais belo. Pode ser que A Vida seja injusta, mas é o que é. Este palavreado todo porque há sonhos, assim como pessoas, que apenas são escolhidos por ficarem bem, não por terem uma grande profundidade, mas da minha parte não o irei fazer.

 

I. Não ser necessário passar este questionário a outros autores: certo, este já está.
 

II. Que a Adriana Lima fique loucamente apaixonada por mim: este também já está! Admito que começo a achar piada a isto.

 

III. que quem lê livros do Osho se convença que não são uma solução para tudo na Vida: se os primeiros pontos descritos até aspiravam a uma viagem agradável, este é o momento em que tudo se afunda mais rapidamente que aquelas pedras que se atiram para o lodo da Ria de Aveiro quando está vaza. Não tenho nada contra o Osho nem contra mensagens espirituais, ainda que obviamente nada façam para resolver os meus problemas de um mercado de trabalho emprego decente e sexo espectacular, mas fico com a sensação de haver quem interprete aquela ideia de cada um de nós ser tão especial demasiado à letra, a espécie de gentes que pedem tudo e não dão nada, que diz coisas como "eu faço o que me apetece e ninguém tem nada a ver com isso", que procede exactamente ao contrário do que defende, que se torna mais insuportável que uma criança mimada aos berros, e que de uma maneira geral se comporta como uma fenomenal idiota. Admito entretanto que é uma mesquinha sensação de prazer saber este género de pessoas esmagada pela Vida, como os insectos que são.

 

IV. que quando cai chuva miudinha, ninguém num raio de cento e cinquenta quilómetros em meu redor se ponha a repetir ad nauseam a história do, ai, safa!, que esta chuvinha, parecendo que não molha!...: agora que começaram as chuvas, não há dia/hora/minuto/segundo, em que alguém não insista no óbvio. Sim, molha, é sabido que molha, não é necessário estar a explicar que molha, porque todos percebemos que molha. Esta é uma questão da família da outra, com a qual partilha os traços genéticos de razoavelmente elevados níveis de parvoíce, de quem insiste, sempre que o horário de Verao muda, suspirar que ainda no dia anterior podia ficar mais uma hora na caminha, quando é mais que óbvio que não, não ia ficar mais uma hora na caminha.

 

V. que alguém por uma vez na vida me arranje uma prenda de Natal verdadeiramente espectacular e original: sei que na noite do dia vinte e quatro não vou arregalar os olhos e exclamar, nunca esperei!..., sendo garantido que os livros, DVD, jogos, meias e pijamas da praxe marcarão presença, e juro já aqui que faria amor louco e apaixonado com quem quer que me entregasse uma prenda tão louca e original que me fizesse cair de joelhos e declarar amor eterno. Estás a ler isto, Adriana?

 

VI. cultivar de outra maneira as relações pessoais: tenho genuína inveja de quem se consegue dedicar a diversas e variadas individualidades, devo ser a pessoa à face da Terra que pior trata amigos, conhecidos e familiares, incluíndo não dar notícias durante semanas, não responder a mensagens, ficar meses sem aparecer, recusar saídas para convites apenas porque não me apetece, enfim, um chorrilho de disparates que seguem por aí fora, e se começar a falar de relações amorosas, espero que tenham os lenços à mão, porque tenho o péssimo hábito de me apaixonar por quem seja absolutamente inacessível, incluíndo, mas não limitado a, mulheres demasiado velhas, demasiado novas, demasiado inteligentes, demasiado ricas, demasiado lésbicas, ou demasiado comprometidas, o que me deixa sempre a sentir como devia ser diferente e melhor para as alcançar, sendo respectivamente mais velho, mais novo, mais inteligente, mais rico, mais mulher, ou sei lá, o que não faz maravilhas nem à minha auto-estima nem às minhas noites de sono, e deixa quem me conhece melhor a meter as mãos à cabeça com o lá vamos nós outra vez! Pode haver quem diga que o problema é não reconhecer que sou belo exactamente como sou, mas essas pessoas irão para o Inferno por mentirem.

 

VII. que a simples referência do nome Bloquito(s) deixe legiões de fãs em maior estado de histerismo que um concerto dos Tokyo Hotel: vai acontecer, ainda vai acontecer, mesmo que seja daqui a tantos anos que por essa altura o Bill Kaulitz tenha ficado careca e ninguém se lembre dele e tenha de trabalhar em dois contact center, mesmo tendo sofrido um tumor cerebral e proibido pelo médico de fazer esse tipo de trabalho, porque não consegue arranjar nada mais para se safar a si e aos dois filhos.

 

VIII. conseguir dar um salto mortal de costas: sim, exactamente o que está escrito, sem metáforas. E não, não vou explicar.

 

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Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

polémicas

Parece que levantei alguma polémica ao admitir ter o conhecimento de Como Funcionam As Mulheres, a acreditar na quantidade de pessoas que se têm aproximado de mim com aquele tom de "com que então, senhor que sabe tudo acerca das mulheres", uma invectiva à qual respondo com um tal brilhantismo que as deixo boquiabertas e fascinadas, excepto quando viram costas e se afastam a resmungar que sou mesmo um palerma, mas mesmo aí não é uma clara falha minha, mas apenas da sociedade que ainda não está preparada para tais revelações. Também durante muito tempo se pensou que a luz era branca e depois o Newton provou que não senhor, era de várias cores, como qualquer espectrógrafo pode provar, e mesmo sabendo-se hoje que tinha toda a razão, não deixaram de querer enviá-lo para a fogueira. Ou então era o Galileu, estou sempre a confundir os dois. Mas é isso que sou, um Newton da idade moderna, ainda hoje de manhã meti os Kellogs no micro-ondas e enquanto esperava que aquecessem, deduzi mais uma solução ao Teorema de Poincaré e contactei o Paul Erdös para lhe dar a solução ao problema que ele não estava a conseguir resolver.

 

Mas polémicas nunca andam sozinhas, e ainda hoje me vieram com histórias de acharem o Bloquito(s) muito chato e aborrecido e maçudo, ao que me limitei a responder, sempre com aquele brilhantismo e inspiração, que quem fala é quem é. Isso só por si só pode provar a teoria que idealizei segundo a qual a Humanidade é a coisa mais feia que existe na Existência e que não temos qualquer hipótese de Vida, uma postulação à qual geralmente me respondem com conjecturas como "não, és lindo exactamente como és", "aliás, és mesmo bonzão", "quero-te, quero-te muito", e etc., mas nada prova mais a falha destas idealizações que quando sou abordado na rua por alguém que inicia a conversa com um "ai, rapaz, cresceste tanto, lembro-me de ti assim deste tamanhinho". E quando eu, com toda a simpatia e calor humano que também são meu apanágio, lhes respondo com um inatacável "sim, é verdade, e a senhora também cresceu muito para os lados, que ainda me lembro de si assim magrinha", viram costas e vão-se embora a resmungar como sou um palerma.

 

As pessoas são tão estranhas.

 

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Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

valha-nos são pedro

Prometido que foi não escrever durante alguns dias, há polémicas que não podem ser deixadas em claro, e se até Pedro traiu o Jesus por três vezes, o Universo não me vai castigar por uma transgressão. Ou acho eu que não vai, já se sabe que nestas coisas divinas não há lugar a grande razão, lógica ou intuição. Tenho vindo a perceber a imensa e cada vez mais urgente necessidade de um decreto-lei, ou portaria, ou outra dessas ferramentas legislativas das quais não percebo nada, e se um decreto-lei será assim tão diferente de uma lei, que regule a exposição e temperatura dos micro-ondas. Acontece, derivado de diversos factos da minha vida que são absolutamente fascinantes e que não me darei ao trabalho de descrever de modo a que a vossa imaginação os faça ainda mais espectaculares, ver-me forçado a lidar com diversos desses aparelhos ao longo do dia e dos dias, e tenho denotado um padrão caótico segundo o qual os números expostos na consola, sendo iguais, não correspondem a respectivas capacidades de aquecimento e descongelamento. Dois minutos a oitecentas unidades de energia num primeiro aparelho não resulta na mesma situação num segundo aparelho. O primeiro deixa a sopar a ferver e a mim a soprar feito parvinho para a arrefecer e a pensar se terá mesmo algum fundamento científico isso de soprar para arrefecer a comida, ou será uma daquelas parvoíces que nos dizem enquanto crianças e que não conseguimos deixar de acreditar, e é por isso que ainda hoje me recuso a passar por debaixo de escadas. Já o segundo aparelho deixa a comida gelada e com aquela consistência gelatinosa, ou diria mesmo, nhanhosa!, extremamente desagradável ao toque da língua, e isso só por si faz-me reflectir profundamente se dois minutos a oitocentas unidades de energia serão equivalentes a  oito minutos em duzentas unidades de energia, como as boas regras matemáticas ordenam. Há regulamentos específicos para a capacidade de descarga dos autoclismos e a extensão e textura dos respectivos sifões, não há desculpa para não se regular este tipo de questão, que me parece tão ou mais premente que a avaliação dos professores, uma questão da qual, aliás, não me consigo afastar, mas isso só porque vivo mesmo ao pé do Ministério da Educação e ultimamente não há dia em que não acorde  com os megafones ou as cantigas retiradas do best of do Zeca Afonso. A moral em tudo isto é que Pedro cortou a palavra que tinha dado a Cristo, e por três vezes o atraiçoou até que o galo cantasse, e nem por isso deixou de ser agraciado com a chave dos portões do Céu e a capacidade de controlar o tempo. Se Pedro fez uma suprema caca dessas e ainda saiu a ganhar, ao cortar a minha palavra deixando uma elaborada e intricada reflexão de uma das mais prementes e exigentes questões da actualidade, fico à espera para ver o que me sai na rifa divina. Qualquer coisa menos que super força e voar, Deus, e fico extremamente chateado.

 

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Sábado, 15 de Novembro de 2008

o código do ecoponto

Estou certo que ninguém conseguiu dormir a pensar na problemática do colocar as embalagens de tetrapak no ecoponto do cartão ou do metal, pelo que venho agora trocar ainda mais as voltas à questão, já que não sou daqueles que enfrenta os desafios pelo prazer de encontrar soluções, mas apenas para ver se resulta em confusão, e de preferência com sopapos à mistura. Se houver um acidente na estrada e tudo estiver resolvido, as declarações assinadas e os feridos tratados, sigo caminho, mas se houver discussão e berros, estou lá a aplaudir e a dizer que sim senhor, você tenha vergonha na cara!, e se necessário empurro alguém pelas costas e digo que foi o palerma ao meu lado que fez. Isto porque ao preparar uma embalagem de leite de baixa lactose para ser colocada na reciclagem, dei por mim, como tantas vezes acontece, a calcular as milhentas variáveis envolvidas na equação de se colocar a dita cuja no ponto do cartão ou no ponto de metal, como discutido no último artigo, e foi então que reparei haver na embalagem uma referência ao ecoponto amarelo, i.e., o de plástico! Se para o comum dos mortais isso seria o encerrar do debate, é no plástico e pronto, para mim acrescentou ao sistema, já de si intricadamente complexo, uma equação de triplo integral, pois talvez o fabricante se tivesse enganado a colocar o selo da reciclagem, ou talvez até estivesse ali a prova de uma conspiração de um antigo culto místico criado durante a crucificação de Jesus Cristo, que de alguma maneira estaria a usar as embalagens de tetrapak para dominar o mundo. Mas que teorinhazinhas de excremento, hã?, estas da conspiração, ainda há pouco tempo tive de aturar as histórias de quem via na eleição do Barack Obama mais uma prova de um plano de vilões tão distorcidos e caricaturais que só lhes faltava estarem sentados numa poltrona a afagar um gato branco, e quando começou a tentar provar o que estava para ali a dizer com o funcionamento da Reserva Federal dos E.U.A., tornou-se claro que ainda recebia mesada dos papás para viver e que nem das próprias finanças sabia tratar, quando mais da economia de uma das nações mais ricas do mundo. Não tenho nada contra o Dan Brown e gostei d' "O Código Da Vinci", mas no dia em que conhecer o senhor, vou-lhe mandar um bem mandado par de sopapos por ter exarcebado a níveis absolutamente parvos este género de iluminados que acha que o facto de a Escandinávia estar representada de tal modo nas moedas de dois euros que se desenhada ao contrário fica com ar de um pénis em erecção, é um claro sinal que o mundo vai acabar. Aliás, não lhe vou mandar um par de sopapos. Vou empurrá-lo pelas costas e dizer que foi o palerma das conspirações, que de certezinha também estará lá para chorar como o Robert Langdon é o novo messias, o culpado. E como parece que o senhor Brown até chegou a nível castanho dos cinturões de Tae Kwon Do, isso é capaz de resultar em momentos divertidos.

 

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Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

cuidado quando passam pelo Técnico assim a partir das nove da noite

Quando um director do [inserir aqui entidade bancária completamente irrelevante] entrou em contacto por telefone e, num contexto altamente profissional, esclareceu que procedimentos são para as outras pessoas, não para alguém do seu gabarito e estatura, admito que hesitei em lhe perguntar se queria apenas ser adorado a partir de um altar de ouro e incenso, ou se também desejava que lhe executasse um sexo oral de elevada qualidade, mas não o fiz, sendo eu, como seria de esperar, um indivíduo altamente competente e profissional. Ou minto, porque também admito ter reflectido profunda e seriamente, naqueles três ou quatro milésimos de segundo entre a resposta e a acção, se não teria conhecimento de ele, e outros como ele, serem os responsáveis pela actual crise económica e financeira, ao permitir um sistema onde gestores são recompensados por resultados e não responsabilizados no momento de comprovar quem é que andou a fazer caca. Mas também não o fiz, para começar porque não faria a mínima ideia do que estava a falar, para continuar porque estaria apenas a debitar as crónicas do Miguel Sousa Tavares, que me parece daquele género de pessoa que lê coisas sérias e informa-se e pesquisa antes de debitar a primeira parvoíce que lhe vem à cabeça. Não como eu, claro, que a única que leio são as histórias do Tio Patinhas do Don Rosa, e é por isso, apenas por isso, que não sou eu do outro lado do telefone a admitir como sou tão inacreditavelmente poderoso e espectacular. E choro, choro como uma criança por isso.

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publicado por Rui às 10:13
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Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

não apanhar a linha azul quando há jogo na luz

Morar com uma dúzia de representantes dessa espécie tão humana que é a Humanidade tem disto, ainda esta semana entrei na cozinha e percebi que algo estava diferente, havia páginas abertas em cima da mesa e várias pessoas a falar, mas não era da Maxmen o volume de folhas, nem o volume esférico dos seios da Luciana Abreu a discussão a debate, mas uma bíblia, aliás, duas bíblias, que uma até era desavergonhadamente ilustrada, e ouviam-se coisas como "Jesus died for our sins, because he loves us so very much", assim mesmo, em inglês. Só faltou um "praise the lord!" por ali, mas sempre me pareceu que o problema em toda a questão religiosa, e se o Papa terá moral para criticar os capitalistas castelos de areia da actual sociedade consumista enquanto o Vaticano tem um PIB que daria para alimentar metade da população africana, é que há alguns milhares de anos o Homem decidiu separar-se de Deus, como uma criança prodígio que vai embora da aldeia porque não está para se chatear a casar e a passar a vida no campo quando pode ir curar o cancro, ou desenvolver um revolucionário sistema de teletransporte, e que chateie os mais mariquinhas puristas, mas o Homem não se safa muito mal nisto de substituir o Criador, porque o cego pode argumentar que vive na benção dos céus e que verdadeiro cego é aquele que não quer ver, mas o dia em que a Ciência conseguir restituir-lhe a visão é o dia em que vai mandar o Senhor à fava e optar pelas hipóteses do Homem.

 

Mas isto de inspiração pessoal parece-me importante, porque sentir que nada faz sentido é o primeiro passo para cair da cadeira abaixo com uma gravata de corda presa ao tecto, pelo que aproveitei a indicação de várias pessoas para procurar o tal Randy Pausch, professor universitário diagnosticado com cancro terminal e que aproveitou as últimas aulas para passar aquilo que acreditava ser uma lição de vida. Não sou o melhor amigo de mensagens de inspiração, esta moral que ensina como todos são tão especiais, e como têm todo o direito de realizar os sonhos se apenas acreditarem, tem dado origem a uma cambada de fenomenais idiotas que consideram que a compra de um BMW Z3 é uma obrigação perfeitamente natural dos papás, e também porque, bem lá no fundo, a minha cristã educação não consegue deixar de acreditar numa ideia tão parva, o que me tem dado um Q de dissabores à medida que a Vida se delicia em me mostrar espectacularmente errado. Se o caixote do lixo seria a paragem mais próxima deste tipo de sugestões, uma vez que vieram de pessoas por quem quem tenho a consideração suficiente para de vez em quando até fingir que gosto delas, fui ao You Tube procurar pelos sonhos de criança do professor Pausch.

 

Agora, não que alguma vez tenha sido um grande sonhador, pelo menos não desde que percebi que conquistar o mundo me ia dar uma carga de trabalhos, e já em criança era demasiado precoce, característica que carreguei para a idade adulta e a qual as minhas ex-namoradas podem confirmar, pelo que nunca tive o sonho de ser um astronauta ou semelhante. Para os outros um cosmonauta podia ser alguém com um fato espectacular em aventuras espectaculares com alienígenas e armas espectaculares, mas para mim o tenkonauta era apenas um pobre coitado que com tanta passeata em gravidade zero se arriscava a espectaculares problemas de osteoporose, atrofia muscular, redução da capacidade cardíaca, fadiga extrema, prostração, rotura de ligamentos e quebras de ossos, demasiada chatice só para estar onde nenhum homem esteve antes. Prefiro antes ir a Sintra, que também é bonito, e que também garante uma saudável dose de chatices se apanhar o comboio da linha. O problema é que, mais do que as orações da minha avô ou os sermões do senhor prior da freguesia que me meteram de castigo durante dois dias quando dei um beijo a uma menina, fui demasiado educado pela televisão. Ainda hoje recordo um episódio do Duarte & Companhia, em que aquele chinoca que andava sempre chateado teve o pé esmagado quando não se desviou de um carro, e o máximo de reacção que teve foi prender a respiração e passar a andar em bicos de pés. E juro que é verdade, que ainda hoje não tenho nenhum cuidado a atravessar a estrada com essa tão infantil ideia que se o carro me passar por cima o máximo que vou fazer é andar como se estivesse em cima de areia escaldada.

 

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publicado por Rui às 09:27
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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

uma dia na vida

Isto o tramado da vida é quando se apanha apanha com uma música e se fica com ela na cabeça durante todo o dia, que ainda hoje bastou um segundo do Elton John para ficar a cantarolar but it's no sacrifice, no sacrifice, o resto da tarde, mas parece que para o Miguel Torga o tramado era ficar uma tarde inteira para conseguir uma única figura de estilo, o que para alguns é evidência de como era um grande escritor e essas coisas, mas para mim só prova que ainda morava com os pais, porque ninguém fica uma tarde inteira à procura de um oxímoro se tiver roupa para lavar e o chão para varrer. Não que eu tenha nada contra morar com os pais, atenção, que ainda dão bastante jeito, a minha mãe deve ser a única pessoa à face da Terra a saber onde estão aquelas coisas das quais não sei há anos, e cuja localização me é dada com uma precisão que dá gosto, de estarem na segunda gaveta a contar de baixo, do lado direito, debaixo das rendinhas. Também por isso a mãe é o único ser que se pode perdoar de usar e abusar dessa figura estilística tão enervante que são os diminutivos, algo que os empregados do restaurante onde almoço podiam aprender, que se me voltam a dar o "ora aqui está os bifinhos com o arrozinho" ou "vamos lá às coxinhas com  purezinho", bem se arriscam a levar com o prato na cara. Mas lá está, é por isso que mãe há só uma, uma frase que é suposto ter um grande significado e profundidade, mas que eu pensava que era o que lhe respondia quando me mandava buscar duas laranjas à despensa para ela fazer um bolo, e quando eu percebia que já só havia uma porque tinha comido todas as outras, lhe respondia, "mãe, há só uma". E é também uma garantia de a despensa estar sempre recheada, que eu a viver sozinho quantas vezes me levanto a meio da noite cheio de fome e percebo que só tenho chocolate em pó para comer e acabo em desespero de causa a enfardar à colherada o Suchard Express, de longe o melhor chocolate em pó de todos, muito superior aquele do Lidl que não se dissolve como deve ser e deixa uma espessa fatia de chocolate por cima e o leite por baixo em branco, mas que depois não me deixa dormir como deve ser com dores de barriga. Por isso, sim, dão jeito, os pais, um gajo é um gajo demasiado ocupado, com isto de ficar a jogar Warcraft III e a meter fotos no Hi5, não que eu tenha Hi5, ainda no outro dia me perguntaram porque é que eu não tinha Hi5, e até me dei ao trabalho de pensar na questão, mas só porque tinha sido uma menina a fazer a pergunta, porque se fosse um gajo bem o mandava dar uma volta, mas como era um membro de sexo feminino lá fiz o esforço de pensar numa resposta que me fizesse parecer assim um gajo todo zen e com uma grande personalidade que realmente teria todos os motivos do mundo para não ter um Hi5, que elas gostam disso. Nem me lembro bem o que respondi, algo brilhante, como sempre, mas isto do zen fez-me lembrar a fase da vida em que era todo esotérico e preocupado com as energias universais e como me deixei disso quando percebi que uma péssima táctica de engate, elas achavam que lá por ser todo espiritualmente elevado não lhes ia tentar saltar para cima, e é claro que ia tentar, ia tentar sempre, que eu bem sei. A conclusão de tudo isto é um momento de tal genialidade que só pode ser comparado ao momento em que os meus pais acham bem tratar-me por Rucoquinhas ou Rucocachinhas ou outros diminutivos altamente embaraçantes que nem tenho a certeza como se escrevem: não tenho Hi5 porque o meu coração, ó!, é como um limão, tolhido do mundo da confusão,do peito arrancado com esta mão, que ainda um dia quer ir ao Japão. Pois é, Miguel Torga, ficar uma tarde inteira a olhar para o papel em branco todos podem, mas fazer como eu, num único momento reunir rimas, comparações, assíndetos, hipérbatos, disfemismos, e até uma invocação, é coisa apenas ao alcance dos predestinados. No sacrifice at all.

 

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Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

às duas décadas e qualquer coisa

Foi necessário chegar aos vinte e oito anos para a sociedade me considerar um adulto, e se sempre tive para mim que ser "adulto" seria ter uma resposta pronta para tudo e saber exactamente o que fazer em qualquer ocasião, os tépidos e melosos pântanos da vida têm-me provado espectacularmente errado, porque a verdadeira transição para esse momento tão especial não seu deu por perder a virgindade, apanhar uma bebedeira, dar as primeiras passas, publicar um best-seller, saber que um polígono de oitenta e sete lados é chamado de octacontacaiheptágono, conseguir a carta de condução, iniciar-me a trabalhar, sair de casa, casar, mas por, finalmente, ter recebido a minha carta da Reader's Digest a admitir que posso ter ganho um fabuloso prémio. Não há nada mais adulto do que sabermos que sim, somos um dos felizes um por cento, escolhidos em todo o país, a (eventualmente) ter ganho muitas barras de ouro.

 

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publicado por Rui às 07:58
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